quarta-feira, abril 17, 2013

Metabolismo do ferro


Metabolismo do ferro


Sincronia perfeita entre absorpção, utilização e armazenamento do ferro no organismo humano é essencial para ser mantido o equilíbrio do ferro no corpo humano.
Alteração desse equilíbrio leva tanto ao acúmulo de ferro como à deficiência desse elemento.
O ferro é um mineral de importância vital para a homeostase celular. É essencial para o transporte de oxigénio, síntese do DNA e metabolismo energético. É um cofactor importante para as enzimas da cadeia respiratória mitocondrial e fixação do azoto. É utilizado na síntese da hemoglobina nos eritrócitos, mioglobina nos músculos e citocromos no fígado.
Dos cerca de 4-5 gramas existentes no organismo do adulto, cerca de 2.5 gramas estão na hemoglobina. O ferro aparece também na mioglobina, catalases, peroxidases e em proteínas como a ferridoxina ou adrenodoxina.




A deficiência de ferro repercute-se em todo o organismo, sendo a anemia a mais importante consequência desta deficiência. Também o excesso de ferro é prejudicial ao organismo humano, pois o ferro livre promove a síntese de radicais livres de oxigénio, tóxicos, que lesam as proteínas, lípidos e DNA.



Aquisição do ferro

O ferro é obtido de 2 fontes principais:
  • dieta
  • reciclagem dos eritrócitos senescentes

A absorpção intestinal do ferro é verificada no intestino delgado, fundamentalmente no duodeno e, menos, no jejuno.
Numa dieta normal, que contem 13-18 mg de ferro diário, são absorvidos cerca de 1-2 mg, seja na forma livre ou na forma heme. Há factores favorecedores da absorpção de ferro no intestino, como sejam a acidez e a presença de açúcares, que são agentes solubilizadores do ferro. A quantidade de ferro absorvido é regulada pela necessidade do organismo, aumentando nos casos de aumento de demanda, como os casos de gravidez, hemólise ou puberdade por exemplo. Para que esta maior absorpção se proceda, há uma maior expressão  das proteínas envolvidas nesse processo, como a proteína transportadora de metais divalentes 1 ( DMT-1 ) e a ferroportina. A forma de ferro férrico ( Fe ³+ ), fornecida por vegetais e cereais, constitui a maior parte do ferro inorgânico. A forma de ferro heme ( ferro ferroso ou Fe ²+ ) corresponde a cerca de 30% do ferro dietético, e provem da hemoglobina e mioglobina da carne vermelha.
A DMT-1 ( ou Nramp2 ) é formada por 12 segmentos transmembrana, e transporta metais divalentes, nomeadamente o ferro ferroso, manganésio, cobalto, cobre e zinco, todos possuidores de 2 cargas positivas.














Para a DMT-1 exercer a sua função, necessita que o ferro férrico seja transformado em ferro ferroso, processo este mediado pela redutase do citocromo b duodenal ( Dcytb ). A internalização do ferro heme dietético é feita pela proteína transportadora ( carrier, em inglês ) do heme-1 ( HCP-1 ) que se encontra na membrana apical das células duodenais.
O heme liga-se à membrana da borda em escova dos enterócitos duodenais, e a proteína transportadora do heme-1, de 50 Kdaltons com 9 domínios transmembrana, atravessa intacta a membrana plasmática importando o heme extracelular, e com ele o ferro. A seguir, o heme apresenta-se ligado à membrana de vesículas no citoplasma do enterócito duodenal. A HCP-1 também se expressa no fígado e rins, e a sua regulação é feita pelo ferro intracelular, sendo que nos casos de deficiência de ferro a HCP-1 se redistribui do citoplasma para a membrana plasmática das células duodenais, enquanto que nas situações de excesso de ferro a redistribuição se faz do bordo em escova para o citoplasma.
A hipóxia também induz a síntese do HCP-1, facilitando a captação do heme quando há uma necessidade, por parte do organismo, maior. Quando já no interior da célula, o ferro é libertado da protoporfirina pela hemeoxigenase, após o que o ferro vai fazer parte do mesmo pool onde o ferro não heme se encontra, sendo armazenado como ferritina ou libertado do enterócito para o sangue.
O   principal   exportador   de  ferro  da  célula  para  o  plasma  é  a  ferroportina  (  FPT ) que se encontra 


na membrana basolateral de várias células, incluindo enterócitos duodenais, sinciciotrofoblastos placentários, hepatócitos e macrófagos. A expressão do mRNA da ferroportina aumenta no déficit do ferro e na hipóxia. Assim como a DMT-1, também a ferroportina é selectiva do ferro ferroso. Dado que a transferrina sérica tem grande afinidade pelo ferro férrico, o ferro ferroso que a ferroportina externaliza tem de ser oxidado, reacção esta mediada pela enzima do enterócito hefaestina ( ou hefastenina ), uma oxidase semelhante à ceruloplasmina sérica, presente no fígado. Mutações que inactivam a ferroportina ou a hefaestina levam a uma absorpção diminuída, e a um acúmulo de ferro, nos enterócitos e macrófagos.


A proteína da hemocromatose ( HFE ) está fortemente relacionada com a regulação da absorpção intestinal do ferro. A HFE interactua com o receptor da transferrina ( TfR ) detectando o grau de saturação da transferrina, sinalizando para o enterócito, por forma a este absorver mais ou menos ferro da luz intestinal. A mutação do gene da HFE provoca um acúmulo de ferro no organismo decorrente da contínua absorpção de ferro pelos enterócitos uma vez que a HFE nunca dá o sinal ao enterócito de que a transferrina está saturada, pelo que o enterócito considera que a saturação da transferrina ainda não se verifica.

A reciclagem do ferro pelos macrófagos é a outra fonte de ferro do organismo humano. Dada a maior parte do ferro existente no organismo estar associado à hemoglobina, a fagocitose e degradação dos eritrócitos velhos representa uma importante fonte de ferro, sendo esta fonte mesmo suficiente para as necessidades eritropoiéticas diárias. Os macrófagos esplénicos e da medula óssea, e em menor extensão as células de Küpffer hepáticas, reconhecem alterações da membrana do eritrócito senescente, sinalizando estes para que os macrófagos eliminem aqueles eritrócitos, iniciando-se a fagocitose seguida da degradação dos componentes do eritrócito. O catabolismo intracelular do heme, que envolve enzimas como a NADPH-citocromo C redutase, heme oxigenase e a biliverdina redutase, origina como produtos o CO, ferro e bilirrubina. O ferro ferroso é armazenado no macrófago sob a forma de ferritina ou é exportado pela ferroportina, sendo oxidado a ferro férrico pela hefaestina e transportado pela transferrina até onde vai ser reutilizado, predominantemente medula óssea.

O transporte e captação do ferro pelas células é um passo importante no metabolismo do ferro no organismo humano. O ferro, na sua forma de ferro férrico, é transportado pela transferrina ( uma β-glicoproteína de 80 Kda, sintetizada e secretada no fígado ) que possui 2 sítios homólogos com alta afinidade pelo ferro férrico. A transferrina solubiliza o ferro, atenua a sua reactividade e facilita a sua libertação para as células. Em condições normais, a transferrina transporta 3 mg de ferro embora tenha capacidade de transportar até 12 mg, ou seja, geralmente a transferrina apresenta uma capacidade de saturação de cerca de 30%. Quando a transferrina está totalmente saturada, o ferro pode circular livre na circulação sanguínea, sob a forma não ligada ( NTBI - no transferrin binding iron ), facilmente internalizado pelas células, contribuindo assim para a lesão celular que se verifica nos casos de sobrecarga de ferro. Quando o ferro está complexado à transferrina, a internalização do ferro inicia-se pela ligação ao receptor da transferrina ( TfR ) presente na superfície da maioria das células, que é um homodímero transmembrana, formando, cada subunidade, um domínio C-terminal extracelular e um domínio N-terminal citoplasmático. No domínio C-terminal encontra-se o local de ligação à transferrina e no domínio N-terminal encontra-se a sequência responsável pela endocitose da transferrina complexada com o ferro.
A afinidade da TfR à transferrina diférrica é determinada pela HFE. Dentro do citosol, o HFE forma um complexo com a TfR reduzindo o número desses receptores sobre a membrana celular. A interacção transferrina-TfR é facilitada pelo pH extracelular de 7.4 e, a partir dessa ligação, inicia-se o processo de captação de ferro pela célula. O complexo transferrina-TfR-HFE é internalizado por endocitose. Dentro do endossoma, a bomba de protões dependente do ATP reduz o pH, facilitando a libertação do ferro da transferrina e o complexo transferrina-TfR-HFE é reciclado, voltando à superfície celular, sendo então a apotransferrina libertada do TfR. O ferro do endossoma atravessa a membrana da vesícula alcançando o citoplasma. A DMT-1 é essencial para o efluxo do ferro do endossoma para o citoplasma. O ferro na forma férrica, libertado da transferrina, tem de passar à forma ferro ferroso, que é a forma de ferro pela qual o DMT-1 tem afinidade, e essa passagem de ferro férrico a ferro ferroso necessita da acção da ferrirredutase, denominada Steap3, sendo dessa forma o ferro férrico proveniente da transferrina transferido para o citosol pela DMT-1. A incorporação do ferro no anel de protoporfirina formará o heme que, combinará com as cadeias globina e formando-se assim a hemoglobina. Um produto da clivagem do TfR tecidual circula no plasma na forma solúvel de TfR ( sTfR ) havendo uma correlação directa entre a quantidade de sTfR e o TfR celular. A concentração de sTfR circulante é determinada primariamente pela actividade medular eritróide. Casos de hipoplasia da série vermelha, como anemia aplásica ou insuficiência renal crónica, apresentam baixa de sTfR, enquanto que situações de hiperplasia eritróide, como anemia falciforme ou outras anemias hemolíticas crónicas, associam-se a aumento da sTfR.

A deprivação do ferro favorece a formação de complexo IRE-IRP ( elemento responsivo ao ferro – proteínas reguladoras do ferro ) no mRNA da TfR, aumentando a sua síntese, como se verifica na anemia ferropriva, onde se observam concentrações séricas elevadas de sTfR.
O TfR2 apresenta uma similitude da sequência de aminoácidos com o TfR em cerca de 2 terços, e expressa-se  predominantemente   no   fígado   e   algumas   linhagens  celulares  como  a  K562  ( eritroleucemia ) e HepG2 ( hepatoblastoma ). O TfR2 tem actividade de captação de ferro mas, ao contrário do TfR, apresenta afinidade mais baixa pela transferrina diférrica. Mutações no TfR2 têm sido descritas na hemocromatose hereditária.

O transporte de ferro mitocondrial é essencial no metabolismo do ferro. O metabolismo do ferro, tem na mitocôndria um local essencial, já que é o único local onde se dá a síntese do heme e a biossíntese dos clusters Fe-S.
Após o ferro ser transportado através da membrana mitocondrial, a frataxina, proteína localizada na membrana interna e matriz mitocondrial, regula a utilização do ferro mitocondrial destinado à síntese do heme e à génese dos clusters Fe-S. A frataxina, pelo facto de formar um complexo com o ferro, previne a presença de radicais livres na mitocôndria. Desta forma, a falta da frataxina promove acúmulo de ferro na mitocôndria com detrimento do ferro citossólico.
A cadeia respiratória mitocondrial é importante na passagem do ferro férrico a ferroso, sendo que o ferro ferroso é a única forma de ferro que a ferroquelatase incorpora no anel pirrólico para a síntese do heme.


O armazenamento do ferro também tem particular importância no metabolismo do ferro. O ferro armazena-se nas células retículo-endoteliais do fígado, baço e medula óssea, sob a forma de ferritina e hemossiderina. De acordo com a proporção entre as cadeias H e L da ferritina, a isoferritina será mais ácida ( rica em cadeias H ) ou mais básica ( rica em cadeias L ), sendo as primeiras mais frequentes no coração e eritrócitos,  e as últimas mais no fígado e baço ( tecidos mais comprometidos com o armazenamento do ferro ).




A hemossiderina é a forma degradada da ferritina, onde a concha proteica foi parcialmente desintegrada e que, dessa forma, permite que o ferro forme agregados.


Homeostase do ferro

A homeostase do ferro é regulada por 2 mecanismos principais:
  • intracelular: dependente da quantidade de ferro que a célula tem
  • sistémico: dependente fundamentalmente da hepcidina

a) Regulação intracelular:

Proteínas reguladoras do ferro ( IRP1 e IRP2 ) controlam a expressão pós-transcripcional dos genes moduladores da captação e armazenamento do ferro com vista a evitarem tanto o excesso como a deficiência de ferro livre intracelular.
Nas situações de diminuição de ferro intracelular, a IRP1 ou IRP2 ligam-se a IRE ( estruturas em forma de alça presentes em zonas não codificadoras do mRNA ). As IRE podem apresentar-se tanto na extremidade 3' como 5'. Quando na extremidade 3', a ligação ao IRP protege o mRNA da degradação e prossegue a síntese proteica, enquanto que se presente na extremidade 5' inibe a tradução do mRNA, diminuindo a síntese proteica.


Em situação de excesso de ferro intracelular, a IRP é inactivada por 2 formas diferentes:
  • a IRP1 é uma proteína citosólica, bifuncional, que contem um cluster Fe-S; na presença de ferro, a IRP1 age como uma aconitase ( interconvertendo citrato em isocitrato ), e na ausência de ferro liga-se a IRE de vários transcriptos da hemostase do ferro com grande afinidade.
  • Por outro lado, a IRP2 é inactivada por um mecanismo ferro dependente, não se dando a ligação IRP2-IRE nas células com muito ferro.

A DMT-1 e a ferroportina apresentam estruturas IRE-like, embora a função dos IREs nestas proteínas pareça ser mais complexa.

b) Regulação sistémica:

O ferro é eliminado do organismo por secreções, descamação das células intestinais e epidérmicas ou por hemorragias. O organismo não tem mecanismo para eliminar o ferro absorvido ou acumulado em excesso após a reciclagem deste ião pelos macrófagos.
O controlo do equilíbrio do ferro faz-se pela comunicação entre absorpção, utilização e armazenamento. Esta comunicação é feita pela hepcidina, hormona circulante fundamental na homeostase do ferro. É um peptídeo antimicrobiano mediador da imunidade inata. A actividade antimicrobiana, é conferida, pela restrição à disponibilidade do ferro que confere aos microbianos e pela capacidade de romper as membranas celulares. A sua actividade é, no entanto, fundamentalmente sobre a homeostase do ferro, sendo um regulador negativo do metabolismo do ferro sintetizado no fígado. A regulação da expressão da hepcidina é feita pelo estado do ferro ( aumentando a expressão da hepcidina aquando de sobrecarga de ferro; a anemia e a hipóxia reduzem a expressão da hepcidina ) e o estado inflamatório onde o IL-6 tem um papel fundamental. A IL-6 actua directamente sobre os hepatócitos estimulando a hepcidina.





A ferroportina é o receptor da hepcidina, e a interacção da hepcidina-ferroportina controla os níveis de ferro nos enterócitos, hepatócitos e macrófagos. O complexo hepcidina-ferroportina é internalizado na membrana basolateral dos macrófagos, e a ferroportina é degradada, bloqueando a libertação do ferro dessas células, ocorrendo um acúmulo de ferro nos hepatócitos e macrófagos; com a passagem reduzida de ferro para o plasma, verifica-se uma saturação da transferrina diminuída e menos ferro é libertado para a maturação dos eritroblastos. A ferroportina, tal como a DMT-1, transporta ferro ferroso.
A hepcidina induz uma diminuição da transcrição do DMT-1, levando a uma inibição da captação do ferro pelos enterócitos, enquanto que os níveis do mRNA e da ferroportina nos enterócitos não se alteram. Os efeitos da hepcidina são célula dependente, sendo diferenciados nos macrófagos e nos enterócitos.
A regulação da expressão da hepcidina ocorre em nível transcripcional. As citoquinas inflamatórias, e particularmente IL-6, induzem a transcrição do peptídeo antimicrobiano da hepcidina ( HAMP ) pela activação do Stat3, e da ligação do Stat3 ao elemento regulador no promotor de HAMP.
Em situações de anemia e hipóxia há uma redução da expressão da hepcidina visando maior absorpção de ferro pelos enterócitos e maior exportação do ferro do sistema reticulo-endotelial e enterócitos, aumentando a disponibilidade do ferro para a eritropoiese. A transferrina diférrica compete com o HFE, na superfície celular do hepatócito, pela ligação à TfR1. Em situações de altas concentrações de transferrina diférrica, há maior ligação da transferrina ao TfR e a HFE livre sinalizaria por forma a haver uma maior síntese de hepcidina. Nos casos de baixa saturação de transferrina, a competição para a ligação ao TfR seria favorável para a HFE. Diminuição dos níveis de HFE livres levariam à redução da expressão da hepcidina mediada pelo HFE. A expressão da hepcidina também é regulada pelas proteínas hemojuvelina ( HJL ) e TfR2, pelo que mutações nestas moléculas, e na β2-microglobulina, que interactuam com HFE na superfície celular, podem originar hemocromatose, situação em que a expressão da hepcidina está diminuída ou não responde ao excesso de ferro da dieta.

A etiologia das anemias caracteriza-se pela biossíntese anormal da hemoglobina. Os eritrócitos em desenvolvimento requerem ferro, protoprofirina e globina. Desta forma, as anemias por deficiente síntese da hemoglobina podem ser de 3 tipos, consoante o componente em falta.
Na anemia das doenças crónicas, verifica-se haver uma diminuição do ferro plasmático, com acúmulo do ferro nos macrófagos, privando a medula óssea de suprimentos adequados.
A extensão da utilização biológica do ferro, um metal de transição, está na capacidade de existir em diferentes estados de oxidação, formar muitos complexos e actuar como centro catalítico para diversas funções metabólicas. Tem importância capital no transporte do oxigénio e do dióxido de carbono, e participa em componentes de numerosas enzimas celulares importantes para o funcionamento do sistema imunológico, bem como nos citocromos indispensáveis na produção de energia, enzimas do ciclo do ácido cítrico, ribonucleotídeo redutase e NADPH redutase, síntese da dopamina, serotonina, catecolaminas, ácido γ-aminobutírico e formação da mielina.
A reciclagem biológica do ferro é quase total, sendo que apenas quantidades tão pequenas quanto 1.5 mg/dia são necessárias para substituir as perdas diárias existentes.
A  absorpção   do  ferro  da  dieta  é  diminuída  pelo  chá  preto,  chá  verde,  café,  chocolate,  produtos  com  cálcio  ( lacticíneos ) e farelo de trigo integral. Pelo contrário, o ácido ascórbico favorece a absorpção do ferro da dieta, particularmente o ferro não heme ( ferro dos alimentos vegetais ).


Na normalidade, os macrófagos adquirem ferro por fagocitose de eritrócitos senescentes, dos quais a hemoglobina é retirada e catabolizada. O ferro libertado retorna ao plasma por 2 vias diferentes: uma, rápida, associada com a libertação quase imediata do ferro retirado da hemoglobina, e uma lenta, proveniente do ferro incorporado nos depósitos de armazenamento das células.
Na anemia das doenças crónicas, há um bloqueio da via rápida, sendo que o ferro armazenado aumenta e é libertado pela via lenta. A transferrina, assim como a lactoferrina, é fundamental no processo que induz o estado de hipoferremia. A lactoferrina, proteína semelhante à transferrina, é secretada pelos neutrófilos e libertada pela estimulação da IL-1. A lactoferrina liga-se ao ferro com maior avidez que a transferrina, principalmente em pH baixo, não transporta o ferro para as células eritropoiéticas e é captada rapidamente pelos receptores específicos da membrana sobre os macrófagos. A apoferritina, sintetizada em resposta ao aumento intracelular de ferro, quando em excesso se liga a uma quantidade maior que o usual de ferro que penetra na célula desviando-o da via rápida para a via lenta de libertação, aumentando o ferro no interior dos macrófagos.
A IL-1, IL-6, α-TNF e γ-interferão actuam sobre a eritropoiese, inibindo-a, diminuindo a disponibilidade do ferro para as bactérias, aumentando a síntese da ferritina, suprimindo a absorpção de ferro no intestino, aumentando retenção do ferro pelos macrófagos, induzindo a retirada do ferro dos locais de invasão bacteriana pela lactoferrina e levando à síntese de anticorpos contra o sistema de captação de ferro pelas bactérias.

Os eritrócitos, por não possuirem núcleo, mitocôndria nem ribossomas, são incapazes de biossíntese. A produção de energia depende da glicólise anaeróbica. O ciclo de Rapaport-Luebering regula a afinidade do oxigénio pela hemoglobina.


Em casos de hipóxia ocorre inibição da expressão da hepcidina visando maior absorpção de ferro e exportação deste com a finalidade de aumentar a disponibilidade do ferro para a eritropoiese.

hepcidina -----> ↑ captação de ferro
há um hepcidina ---->  quando há ↑ ferro plasmático


A absorpção de ferro da dieta é feita em 3 etapas:
  • importação: consiste no transporte do ferro do lúmen intestinal para o interior do enterócito duodenal, através da membrana celular ( intervêm HCP-1 e DMT-1 )
  • processamento: consiste na movimentação do ferro dentro do enterócito
  • exportação: é a saída de ferro do enterócito para a corrente sanguínea ( intervem ferroportina )

A maioria das proteínas onde o ferro é contido são estruturalmente semelhantes. Em parte delas o ferro está no grupo heme, local activo de transporte de electrões de citocromos, citocromo oxigenase ( essencial no ciclo de Krebs ), peroxidases, catalases, mioglobina e hemoglobina. Noutras proteínas, o ferro pode encontrar-se na forma sulfúrea ( Fe-S ) como é o caso da ribonucleotídeo redutase, aconitase, desidrogenase succínica. O ferro pode lesar os tecidos por catalizar reacções produtoras de radicais livres de oxigénio que destroem a membrana celular, proteínas ou DNA.





Quando a dieta é rica em ferro, e assim a ferritina no enterócito é alta, o complexo HFE-TfR inibe a capacidade da absorpção de ferro do enterócito, um processo chamado de bloqueio mucoso.
A absorpção do ferro é regulada em 3 pontos principais. O primeiro é o bloqueio mucoso. O segundo mecanismo refere-se ao mecanismo regulador de armazenamento de ferro em que estados de sobrecarga de ferro provocam menor absorpção, enquanto que se observa uma maior absorpção nos casos de ferropenia. O terceiro mecanismo, o regulador hematopoiético, modula a absorpção consoante as necessidades da eritropoiese.

                                          Mecanismos de regulação da absorpção do ferro
                                                          - Bloqueio mucoso
                                                          - Reservas de ferro
                                                          - Necessidades eritropoiéticas

O estudo do metabolismo do ferro demonstra que 80% do ferro plasmático é levado para a medula óssea, para a eritropoiese. Os restantes 20% são armazenados nos hepatócitos, sob a forma de ferritina e hemossiderina, assim como algum é levado para os músculos ( mioglobina ) e outros tecidos. Macrófagos teciduais também servem de armazenamento de ferritina e hemossiderina.
40% do ferro dos eritrócitos destruídos aparece, dentro de 12 dias, em circulação, em novos eritrócitos.
Não existe um mecanismo fisiológico de excreção de ferro.
O ferro sérico obedece a um ciclo circadiano, sendo mais alto entre as 7 e as 10 da manhã e diminuindo à noite.

( ácido δ-aminolevulínico sintetase )
A afinidade do IRP pela IRE depende da quantidade de ferro intracelular. Quando há excesso de ferro, a ligação IRP-IRE não ocorre, o que permite que a tradução do mRNA prossiga. A formação do complexo IRP-IRE na extremidade 5' do mRNA impede a tradução do mRNA da ALAS2 ( ácido δ-aminolevulínico sintetase ). A importância disto advém de que a síntese de heme inicia-se pela formação do ácido δ-aminolevulínico a partir da condensação da glicina com succinilCoA, reacção catalizada pela ALAS2 e que requer  a  participação  da   vitamina  B6  como  cofactor.  Nas situações  de excesso de ferro, a ALAS2 é expressa e a biossíntese do heme inicia-se para aproveitamento do ferro disponível. Quando há falta de ferro, o complexo IRP-IRE bloqueia a tradução do mRNA, abolindo a expressão do ALAS 2, diminuindo a síntese do heme. O ácido δ-aminolevulínico passa da mitocôndria para o citosol e sofre um processo de dimerização originando o porfobilinogénio, reacção catalizada pela aminolevulinato dehidratase. Pela acção do porfobilinogéneodeaminase é formado um polímero de 4 moléculas de porfobilinogéneo, denominado hidroximetilbilano, que serve de substracto ao uroporfirinogéneo sintetase III, que cataliza a conversão do hidroximetilbilano em uroporfirinogéneo III, primeiro elemento em anel. Uma forma isomérica, metabolicamente inerte, de uroporfirinogéneo ( UPG I ) é formada e descarboxilada parcialmente produzindo o coproporfirinogéneo I, que é eliminado, não sendo convertido em heme. A partir do uroporfirinogéneo III, que é descarboxilado e sofre remoção de 4 grupos acetato, é gerado o coprogen III e que vai originar a formação do heme após a acção da ferroquelatase. A expressão da ferroquelatase é regulada pelo ferro intracelular e pela hipóxia.


A síntese do heme nas células eritróides está comprometida com a síntese da hemoglobina nos eritroblastos.

No interior do enterócito duodenal, o ferro é libertado da protoporfirina pela heme oxigenase, indo fazer parte do mesmo pool de ferro não heme proveniente da dieta. Se a necessidade de ferro for baixa, o ferro permanecerá no enterócito, na ferritina; se houver necessidade de ferro, este sairá do enterócito para o plasma, onde é transportado pela transferrina.
A saída de ferro do enterócito para o plasma é feita unicamente pela acção da ferroportina, proteína transmembrana que se localiza na região basolateral do enterócito, assim como noutras células do organismo. A ferroportina também, como o DMT-1, é selectiva para o ferro ferroso.
Os reticulócitos, ao contrário do que acontece no coração e fígado, só captam o ferro ligado à transferrina.






A ferroportina é o receptor da hepcidina, e a interacção ferroportina-hepcidina controla os níveis de ferro nos enterócitos, hepatócitos e macrófagos.
O complexo ferroportina-hepcidina é internalizado nos domínios da membrana basolateral dos macrófagos; ocorre a fosforilação da tirosina num dos domínios citoplasmáticos da ferroportina com internalização da proteína, desfosforilação, ubiquitinação e degradação de ambas as proteínas no componente lisossomal do endossoma. Desta forma, o ferro não é externalizado, levando a aumento do ferro no citosol que será armazenado como ferritina, havendo acúmulo de ferro nos hepatócitos e macrófagos, com diminuição de passagem de ferro para o plasma, diminuição de saturação da transferrina e menos ferro libertado para o desenvolvimento dos eritroblastos.

O aumento dos níveis de ferro leva a que o HFE, a hemojuvelina e o TfR2 estimulem a síntese de hepcidina pelo fígado, que vai inibir a absorpção do ferro intestinal e a libertação do ferro dos macrófagos, reestabelecendo o equilíbrio do ferro.

A ferritina plasmática tem propriedades oxidativas, convertendo o ferro ferroso em ferro férrico, facilitando a sua incorporação pelas células. A vitamina E, por aumentar a resistência da membrana eritrocitária à hemólise e assim diminuir a velocidade de renovação da hemoglobina, influência na conservação das reservas corporais de ferro.

A avidez da ligação da apotransferrina aos enterócitos é muito maior que a da transferrina saturada. Por outro lado, a transferrina diférrica tem muito mais afinidade que a monoférrica para os receptores celulares da transferrina, determinando que a libertação de ferro plasmático para os tecidos seja maior com o aumento da saturação da transferrina.
O TfR é uma proteína transmembrana, composta por 2 cadeias polipeptídicas idênticas, ligadas por uma ponte dissulfídrica. Uma molécula de transferrina liga-se a cada uma das subunidades do TfR. O complexo ferro-bicarbonato-transferrina, ligado ao TfR, entra na célula por endocitose. Num pH ácido, existente na vesícula endocitótica, o ferro é libertado continuando a apotransferrina ligada ao TfR, retornando o complexo transferrina-TfR à superfície celular que, a pH neutro, separa a transferrina do TfR e retorna ao plasma para novo ciclo.
Há uma relação directa entre o número de TfR e actividade eritropoiética e uma relação inversa entre o número de TfR e a quantidade de ferro no organismo.

As IRPs regulam, em conjunto com as IREs, a entrada e armazenamento de ferro no interior das células, através do controlo de processo de tradução da síntese do TfR e ferritina. Cinco IREs estão presentes na posição 3´ da região não traduzida do mRNA do TfR, enquanto que apenas uma IRE está presente na posição 5' do mRNA da ferritina.

A afinidade do TfR à transferrina diférrica é determinada pelo HFE ( proteína da hemocromatose ). Dentro do citosol, o HFE forma um complexo com o TfR reduzindo o número desses receptores sobre a membrana celular.

A absorpção do ferro da dieta envolve a libertação do ferro pelo HCl ( como ferro férrico ) formando um quelato com o ácido ascórbico e certos açúcares e aminoácidos. Estes quelatos permanecem solúveis nos líquidos mais alcalinos duodenais e jejunais onde se intensifica a absorpção do ferro.

O ferro férrico é pobremente solúvel a pH superior a 3, e assim fracamente absorvido. Pelo contrário, o ferro ferroso é mais solúvel mesmo a pH alcalino e, dessa forma, mais facilmente absorvido.

A hepcidina é superexpressada nas situações de sobrecarga de ferro e nos casos de infecções e inflamações. Já situações de deficiência de ferro ou de hipóxia inibem a expressão da hepcidina. A ferroportina é o receptor da hepcidina, formando um complexo que controla os níveis de ferro nos enterócitos, hepatócitos e macrófagos.

A HFE está ligada à regulação da absorpção de ferro. A HFE interactua com a TfR detectando o seu grau de saturação. Com o aumento dos valores de saturação ocorre um maior armazenamento do ferro na ferritina. Quando a saturação diminui, acontece um aumento do ferro transportado na circulação.


sábado, abril 13, 2013

Aftas


Aftas


Manifestações clínicas intrabucais da Doença de Crohn


A doença de Crohn é uma doença inflamatória crónica, granulomatosa, de etiologia desconhecida mas com natureza imunológica e factor genético interveniente no seu desencadear.
Todo o tubo digestivo pode ser acometido pela doença de Crohn, afectando todos os grupos etários, com predomínio de idade inicial entre os 25-30 anos e, posteriormente, na faixa etária dos 60-65 anos, podendo ocorrer manifestações sistémicas extradigestivas. A prevalência das lesões na cavidade bucal varia com a faixa etária, atingindo os 2 sexos, e é mais prevalente em pessoas de raça branca. Em cerca de 30-60 % dos casos, as lesões bucais precedem as lesões sistémicas. Apenas em cerca de 9 % dos casos de doença de Crohn aparecem manifestações orais ( as manifestações orais aparecem apenas em cerca de 9% dos casos de doença de Crohn, mas quando aparecem surgem antes das manifestações sistémicas em 30-60% das situações ).
Nas fases iniciais da doença de Crohn, a sintomatologia pode ser súbtil e dificultar, e atrasar, o diagnóstico. Os sinais e sintomas mais frequentes da doença de Crohn são a dor abdominal, diarreia, mal estar geral, anorexia, perda de peso, anemia e febre. A doença de Crohn caracteriza-se por ser uma doença crónica com crises separadas por períodos de remissão totalmente assintomáticos. As lesões intestinais são pequenas erosões ou úlceras entremeadas por edema submucoso e com áreas totalmente sãs entre elas.
Na mucosa bucal atinge principalmente a região do fundo do sulco, embora os lábios, gengivas e outros locais podem estar envolvidos. As lesões são inicialmente úlceras focais lineares na mucosa, semelhantes às úlceras aftosas recorrentes mas mais persistentes, mais profundas, de forma linear e circundadas por margens hiperplásicas.


Afta associada a doença de Crohn

O tratamento das lesões orais nos doentes com doença de Crohn é feito com corticóides sistémicos ou locais, que ajudam a diminuir ou melhorar a sintomatologia das úlceras, levando até à remissão da sintomatologia.

As úlceras intrabucais costumam aparecer como úlceras lineares rasas, com centro deprimido, limites pouco elevados e nitidamente eritematosos, mais frequentemente no fundo do sulco gengival, e que duram mais do que as úlceras aftosas recorrentes ( mais de 15 dias em geral ).


Leucoderma bucal

Importante ter em mente que, apesar das lesões ulcerosas intrabucais serem uma manifestação de doença de Crohn que podem anteceder as manifestações digestivas da doença, lesões semelhantes podem ocorrer na população em geral ( inclusivé doentes com doença de Crohn ) e nada terem a ver com a doença de Crohn. A biópsia destas lesões em doentes com doença de Crohn, na maioria das vezes, dá resultados inconclusivos. O tratamento da doença de Crohn deve ser implementado, e este tratamento em geral faz desaparecer as lesões intrabucais.
As úlceras aftosas recorrentes ( aftas ) do tipo minor são caracterizadas como úlceras rasas, planas, ovais, com halo eritematoso, enquanto que as úlceras da doença de Crohn são mais lineares. No entanto, as úlceras aftosas major , por serem mais profundas e perderem a forma oval, assemelham-se às das da doença de Crohn.
O edema dos lábios, da mucosa oral e gengiva pode ser sinal de doença de Crohn.


Causas do aparecimento das aftas

As aftas aparecem mais no sexo feminino que no masculino e atingem mais a faixa etária dos 10 aos 40 anos.
A etiologia das aftas permanece desconhecida, mas nota-se uma correlação entre o aparecimento das aftas e certos factores, estando entre estes os seguintes:
  • medicamentos: AINE's, antibióticos, ácido benzóico, antivitamina K, meprobamate, quimioterapia
  • falta da higiene oral
  • abuso de nutrientes aftogéneos: queijo tipo gruyère, frutos secos, nozes, castanhas, amendoins, amêndoas, chocolates, tempêros ( ketchup, vinagre, maionese, mostarda, etc.) glúten, tomate, abacaxi, café, pois são alimentos ácidos
  • carência de ferro
  • traumatismos químicos ou mecânicos
  • vírus como herpes ou HIV
  • mordedura da parte interior da bochecha
  • doença de Crohn
  • doença de Behçé
  • stress físico ou emocional
  • período menstrual
  • puberdade
  • gravidez ( remissão no 3º trimestre da gravidez é frequente )
  • menopausa
  • diabetes
  • alergias
  • neutropenias de diferentes etiologias
  • alcoolismo
  • tabagismo
  • predisposição genética
  • deficiência de ácido fólico, zinco, vitamina B1, B2, B6 e B12 e ferritina
  • alterações hormonais
  • poucas horas de sono
  • Helicobacter pylori
  • refluxo gastro-esofágico

As aftas são pequenas úlceras, arredondadas a ovais, com fundo amarelado e contorno avermelhado, que aparecem nas gengivas, bordo interno dos lábios e bochecha e ponta da língua.
Para ajudar ao tratamento das úlceras aftosas deve-se fazer, 2-3 vezes por dia, gargarejos com água e sal. O fundamento deste procedimento é que, dado as feridas da mucosa oral serem causadas pela hiperacidez presente, o gargarejo com água salgada remove a acidez.
Alimentos como carnes vermelhas, doces, melão ou nozes favorecem o aparecimento das aftas. Para contrabalançar os factores por estes alimentos criados para o favorecimento do surgimento das aftas devem-se ingerir saladas.
A resposta inflamatória das aftas é o resultado anormal duma resposta imunológica dirigida à mucosa bucal. A imunopatogenia pode estar envolvida com o desiquilíbrio imunológico desses doentes. Na verdade, estudos demonstram haver aumento de CD4 e diminuição de CD8.

As aftas podem ser de 3 tipos:
  • Tipo minor: o mais comum, constituindo 80-90% dos casos, são lesões pequenas, únicas ou múltiplas, ovóides a arredondadas, com base crateriforme, contorno bem definido e halo eritematoso, com exsudado amarelado e centro deprimido, com cerca de 10 mm de diâmetro e duração de 7-14 dias; afectam predominantemente a mucosa do soalho bucal, jugal e labial e menos vezes a mucosa palatina, gengival e dorso da língua
  • Tipo major: são cerca de 7-10% dos casos, de diâmetro superior a 10 mm e que deixa cicatriz ao curar; pode durar até 6 semanas, localizando-se preferencialmente no palato mole e mucosa labial
  • Tipo herpetiforme: são múltiplas e numerosas úlceras, de 10 a 100 ou mais, pequenas, de 1-3 mm de diâmetro, que ocorrem em um único surto e podem fundir-se, persistindo até 10 dias.

A afta provoca dor decorrente da exposição do tecido conjuntivo altamente inervado. Esta lesão, de etiologia desconhecida, parece decorrer de uma falha imunológica, embora outras causas também possam ter um papel relevante no seu surgimento. A afta é uma lesão não infecciosa, e como tal não apresenta sinais de infecção, como seja secreção purulenta ou microorganismos presentes na lesão.

                  Afta tipo minor                                 Afta tipo major                                 Afta tipo herpetiforme

A lesão aftosa apresenta 4 fases:
  1. Período prodrómico: dura até 24 horas e apresenta parestesias ( formigueiro ), queimor, dor ou hiperestesia sem alterações clínicas
  2. Estadio pré-ulcerativo: dura de 18 horas a 3 dias, com dor de intensidade variável, geralmente moderada
  3. Fase ulcerativa: caracterizada por áreas ulceradas, planas ou elevadas, com halo eritematoso gradualmente coberto por uma membrana cinzenta ou amarelada, e que dura 1 a 6 dias; as lesões são dolorosas
  4. Período de cicatrização: dura 4-35 dias consoante o tipo de úlcera.

Tentativas de implicar microorganismos com o aparecimento das aftas não foram bem sucedidas, havendo, no entanto, a hipótese de existirem reacções cruzadas entre os antigéneos da mucosa oral e bactérias como o Streptococcus sanguis. Outros estudos, mal sucedidos neste aspecto, tentaram implicar os vírus herpes simplex, varicela-zoster, citomegalovirus e o vírus de Epstein-Barr.
Processos imunológicos mediados por células, nomeadamente mononucleares, células T e células NK, estão envolvidos, estando evidenciado ocorrer reacções citotóxicas teciduais anticorpo-dependentes. Também se verificou um abaixamento das IL-10.

quinta-feira, abril 11, 2013

Melanina


Melanina



Os grânulos de melanina são fabricados pelos melanócitos, células dendríticas originárias da crista neural, produtoras de pigmento, que sofrem influência da hormona melanocítica produzida pelo lobo intermediário da hipófise. A produção dos melanócitos necessita da tirosinase. Com a idade, a actividade da tirosinase diminui e o pigmento que dá a cor ao cabelo deixa de se produzir e ficam os cabelos brancos. Esta alteração da produção de tirosinase também se pode verificar pelo stress e algumas doenças como a tiroidite ou a anemia perniciosa.

Dois tipos de melanina existem:
  • eumelanina, mais escura
  • feomelanina, presente nas pessoas loiras e ruivas
As pessoas ruivas apresentam mutações do receptor de melanocortina 1 ( MC1-R ) que resultam na sintese da feomelanina, pigmento este que, ao contrário da eumelanina, não é boa barreira contra os raios ultravioleta e cujos produtos de fotodegradação são genotóxicos e, portanto, carcinogénicos.
A via de síntese da feomelanina tem, como desvantagem, a utilização de uma molécula importante para outras vias metabólicas , como as associadas à cisteína. Isso acontece pela razão de que para a feomelanina ser formada é preciso a glutationa redutase ( GSH ). No entanto, por vários motivos, a cisteína pode acumular-se demais e levar a efeitos bioquímicos prejudiciais, inclusivé com os níveis altos da cisteína se correlacionando com o aparecimento de artrite reumatóide, lupus eritematoso sistémico, doença de Parkinson e doença de Alzheimer e doenças cardiovasculares.



Assim, no sequestro de GSH, nos casos em que há acúmulo de cisteína até concentrações perigosas, é útil haver uma via de síntese, como a da feomelanina, para a degradação de cisteína-GSH.
O stress térmico esgota os níveis de GSH eritrocitário, e como este tipo de stress diminui com o aumento da latitude, e concomitante diminuição da temperatura, as maiores concentrações de GSH-cisteína tendem a provocar um aumento da feomelanogénese e inibição da eumelanogénese à medida que nos afastamos do equador, tornando mais fácil a síntese da feomelanina. Por outro lado há uma maior prevalência de parasitas humanos em baixas latitudes e, dado os parasitas gerarem stress oxidativo nos hospedeiros, sugere-se que os níveis elevados de eumelanização estão envolvidos na resposta a estes efeitos oxidativos, uma vez que a GSH é um composto anti-oxidante.

A GSH é a forma principal de armazenamento da cisteína, actuando assim como reserva deste aminoácido.
A produção da eumelanina e da feomelanina é feita por processos diferentes. Podemos diferenciar um pigmento eumelânico ( com forma de pequenos bastões ) dum pigmento feomelânico ( com forma de grãos esféricos ).



Melanina é uma classe de compostos poliméricos derivados da tirosina e cuja principal função é a pigmentação e protecção contra a radiação solar. A falta de melanina dá origem ao albinismo. A melanina é produzida nos melanócitos ou melanoblastos, células da camada basal da epiderme, que mantêm contacto com os queratinócitos através de projecções citoplasmáticas, sendo estes prolongamentos que permitem que os pigmentos melânicos produzidos se depositem nos queratinócitos.




A síntese da melanina é processada pela tirosinase existente no aparelho de Golgi dos melanócitos. A melanina é sintetizada a partir da fenilalanina convertida em tirosina pela fenilalaninahidroxilase, e é originada a partir da polimerização da tirosina que se deposita nos melanossomas que se deslocam para os prolongamentos citoplasmáticos dos melanócitos, sendo  transferidos  para  os  queratinócitos  por  um  processo  denominado secreção  citócrina ( de célula a célula ) permanecendo os grânulos de melanina no citoplasma dos queratinócitos.


As diversas camadas de queratinócitos com melanina proporcionam uma defesa eficaz aos tecidos contra os efeitos nocivos das radiações UV solares. Os raios solares aumentam a actividade da tirosinase nos melanossomas. Várias hormonas também participam da produção melânica.


A hipófise secreta ACTH e HME ( hormona melanócito estimulante ) aumentando a síntese da melanina. Já as hormonas da suprarrenal apresentam-se inibidoras da hipófise, do ACTH e do HME, levando a um equilíbrio e modulação da síntese da melanina. Os grânulos de melanina dispõem-se sobre o núcleo do queratinócito, protegendo o DNA da acção dos raios solares. A eumelanina é muito mais eficaz que a feomelanina nesta função de protecção de danos ao DNA pelos raios solares, e por isso os cancros da pele são muito mais frequentes em pessoas de pele clara do que em pessoas de pele escura. A produção da eumelanina e da feomelanina é controlada por um receptor transmembrana ao qual a MC1-R se liga.
A ausência da tirosinase , fundamental para a síntese da eumelanina, é a responsável pela ausência de pigmentação   dos  indivíduos com albinismo.  Disfunção  nos  genes  responsáveis  pela   síntese   dos   enzimas  produtores  da  melanina  também  levam  ao aparecimento  da fenilcetonúria.




A síntese da feomelanina esquematiza-se da seguinte forma

cisteína ---> intermediários benzotiazinas ---> feomelanina

A síntese da eumelanina esquematiza-se da seguinte forma

l-tirosina ---> dopaquinona ---> hidroxindoles ---> eumelanina


A melanina é eliminada através do processo natural de descamação e renovação da pele.
Pessoas ruivas de pele clara estão em maior risco de desenvolverem melanoma. Este fenótipo é devido à inactivação de polimorfismos do gene do MC1-R.
O MC1-R  codifica  uma  cAMP  estimulante  dos  receptores acoplados à proteína G que



controla a produção do pigmento melânico. Actividade mínima produz a feomelanina, enquanto que aumento da actividade do MC1-R estimula a produção da eumelanina.
A   pigmentação   da  pele  sofre forte controlo hormonal. ACTH, hormona hipofisária e MSH ( hormona estimulante dos melanócitos ) actuam no sentido da estimulação da melanogénese   bem  como  o  MC1-R.
A   radiação   UVB   sobre   a   pele   humana   induz   à   produção  de  MSH  e   ACTH


nos melanócitos e queratinócitos através da estimulação da tirosinase e a síntese da melanina. Pelo contrário, hormonas da suprarrenal inibem a produção da melanina.
A síntese da melanina dá-se exclusivamente nos melanossomas. Os melanossomas nos negros são maiores e mais maduros que nos indivíduos de raça branca e são armazenados mais como unidades do que como agrupamentos.



Melanócitos são células responsáveis pela pigmentação da pele e pêlos, conferindo protecção directa aos danos provocados pelos raios solares ( UVB principalmente ). São células dendríticas derivadas dos melanoblastos originários da crista neural. Estes melanócitos, completamente desenvolvidos, distribuem-se por vários locais: olho ( epitélio pigmentar retiniano, iris, coróide ), ouvidos, SNC ( leptomeninges ), matriz dos pêlos, das mucosas e da pele. Na pele os melanócitos localizam-se na camada basal da epiderme e ocasionalmente na derme. Os melanócitos transferem os melanossomas aos queratinócitos. Esta associação melanócitos-queratinócitos se denomina de unidade epidérmico-melânica e é constituída por um melanócito e cerca de 36 queratinócitos. 
A densidade dos melanócitos  varia  consoante  a  localização  no  corpo  humano, sendo maior    na  cabeça   e   antebraço   que    no   resto    do    corpo.    Esta    regulação   do


número de melanócitos está mediada pelos queratinócitos e por mediadores específicos como o factor de crescimento dos fibroblastos.
Com a idade, o número de melanócitos diminui em áreas não expostas aos raios solares numa proporção de 6-8 % por cada 10 anos. As diferenças da pigmentação são devidas ao grau de  actividade  de  síntese  da  melanina  e melanossomas, proporção dos subtipos de melanina    ( eumelanina e feomelanina ), distribuição e envolvimento de factores ambientais com exposição à luz solar.


A melanina produzida, fica armazenada em estruturas citoplasmáticas dos melanócitos denominadas melanossomas.
Os melanossomas são organelos onde ocorre a síntese e armazenamento da melanina e o armazenamento da tirosinase, sintetizada pelos ribossomas, necessária à produção da melanina. A síntese da melanina é mesmo apenas feita nos melanossomas. A diferença fenotípica fundamental entre as raças reside na qualidade dos melanossomas ( há 4 tipos de melanossomas denominados grau I a grau IV ). Os melanossomas têm um importante papel fotoprotector contra os danos celulares provocados pelos raios solares.
Melanina é o principal pigmento biológico que interfere na pigmentação da pele.
A tirosina, o elemento inicial da biossíntese da melanina, pela acção da tirosinase, complexo enzimático cúprico-proteico sintetizado nos ribossomas e transferido para o aparelho de Golgi, é aglomerado nos melanossomas. Os 3 membros da família da tirosinase ( tirosinase, tirosinase relacionada à proteina 1 – Tyrp1 – e a dopacromotautomerase – Dct ) estão envolvidos na melanogénese que leva à produção da eumelanina ou da feomelanina.


A tirosinase, na presença de oxigénio, oxida a tirosina formando a dopa e posteriormente a acção da dopaquinase leva à produção de dopaquinona. A partir do momento da formação da dopaquinona a presença, ou ausência, da cisteína determina a síntese de feomelanina ou eumelanina.
Na ausência de cisteína a dopaquinona vai originar a ciclodopa e esta origina o dopacromo. O dopacromo tem 2 vias de degradação: uma, que origina a dihidroxiindol ( DHI ) e outra que origina a DHICA ( dihidroxiindol do ácido carbólico ). Este processo é mediado por um membro da família das tirosinases, a Dct. Por fim, estes dihidroxiindois são oxidados originando a melanina. A Tyrp1  está  envolvida  na catalização da DHICA em eumelanina. 
Por outro lado, na presença de cisteína, a dopaquinona reage com as cisteinildopas, que são oxidadas em benzotiazinicos e produzem feomelanina.


A eumelanina é um pigmento alcalino e insolúvel enquanto que a feomelanina é alcalino mas solúvel. A feomelanina pode ser oxidada na presença de iões metálicos e tornar-se mais claro.
A melanogénese apresenta 3 passos importantes:
  1. produção de cisteinildopa, que continua tão intensa quanto a quantidade de cisteína presente
  2. oxidação de cisteinildopa para a formação de feomelanina
  3. produção de eumelanina, iniciada apenas após a maioria da cisteinildopa ser depletada


Parece que a eumelanina se deposita sobre a feomelanina pré-formada, e a relação entre feomelanina e eumelanina é determinante pela actividade da tirosinase e disponibilidade de cisteína.
A eumelanina absorve e dispersa a luz UV atenuando a sua penetração na pele reduzindo assim os efeitos nocivos daquelas radiações solares.
A feomelanina, para além de ser menos eficaz na protecção contra as radiações solares, também tem um grande potencial de gerar radicais livres como resposta aos raios UV solares que provocam danos no DNA.


O MC1-R controla a taxa de eumelanina e feomelanina dentro dos melanossomas e esta proporção é um importante determinante à sensibilidade solar do ser humano.
A melanina total da pele resulta de uma mistura de monómeros de feomelanina e eumelanina, e a proporção entre as duas determina a expressão fenotípica final da cor da pele e cabelo.
Melanossomas com eumelanina, após exposição às radiações UV, permanecem intactos na epiderme. Pelo contrário, nenhum melanossoma aparece intacto nos casos de feomelanina ser o tipo de melanina presente nesses melanossomas.



Os principais factores reguladores para a quantidade e qualidade de melanina produzida pelos melanócitos incluem as radiações ultra-violeta, α-MSH ( hormona estimuladora dos melanócitos tipo α ou melanocortina ), ASP ( proteina sinalizadora AGOUTI ) e MC1-R.
O α-MSH é produzido também nas ilhotas de Langerhans do pâncreas e nos melanócitos. A α-MSH tem funções parócrinas nos melanócitos. Os efeitos do α-MSH são mediados pelo MC1-R, o qual é expresso na superfície dos melanócitos, sendo considerado o ponto chave para a pigmentação.
O gene do MC1-R é considerado um dos maiores marcadores de susceptibilidade a neoplasias malignas cutâneas já que variantes genéticas estão associadas a maior risco de desenvolvimento de melanoma e cancro cutâneo não melanoma.