ADA –
Adenosinadesaminase
A
adenosinadesaminase, ADA, é uma enzima que interfere de modo activo
no metabolismo dos nucleotídeos da adenina, catalisando de forma
irreversível a desaminação hidrolítica da desoxi-adenosina e da
adenosina, levando à produção de desoxi-inosina e da inosina
respectivamente, e amoníaco. Desta forma tem acção importante na
maturação e activação linfomonocítica.
O
seu doseamento nos líquidos biológicos ( pleural, pericárdico,
peritoneal, articular ou LCR ) dá indicações válidas para
diagnóstico rápido de infecção tuberculosa. Também há elevação
da ADA nos casos de SIDA no soro e nas células hemáticas, elevação
esta que acompanha paralelamente a evolução da doença.
Apontam-se
os linfócitos CD4+ e os macrófagos como sendo os principais
responsáveis pelo aumento da ADA, sendo desta forma este parâmetro
um indicador de resposta imunocelular. Anemia hemolítica congénita
deve-se a aumentada actividade enzimática nos eritrócitos.
A
ADA é uma enzima existente em todos os tecidos, sendo mais abundante
nas mucosas digestiva e órgãos linfóides, predominantemente no
timo, baço e gânglios linfáticos, por ordem decrescente. Existe em
menor quantidade no fígado, rim, cérebro e pulmões.
Os
linfócitos T apresentam uma quantidade de ADA superior aos
linfócitos B, sendo tanto mais ricos em ADA quanto mais imaturas
as células forem. Pensa-se que os linfócitos B apresentam uma
enzima capaz de degradar a ADA em quantidades superiores aos
linfócitos T, o que explica a concentração de ADA nos linfócitos
T ser 7-12 vezes superior à dos linfócitos B.
Macrófagos
e monócitos apresentam níveis idênticos aos dos linfócitos T
enquanto que os linfócitos null cell apresentam uma
concentração de ADA, por célula, superior à dos linfócitos T.
ADA
tem uma função importante na maturação dos linfócitos T e dos
monócitos, bem como na maturação linfoblástica pós administração
de mitogénicos como fitohemaglutinina ou concanavalina A ou com
antigéneos.
A
activação monocítica-macrofágica associa-se fortemente à ADA.
Imunodeficiência grave congénita apresenta-se nos casos em que a
ADA se apresenta em concentrações baixas nos linfócitos.
97%
da concentração de ADA se encontra no citoplasma celular sendo o
restante presente nos organelos. Apesar da sua localização
citoplasmática, e assim intracelular, a ligação à membrana
celular pela Proteína Fixadora da ADA ( PFADA ) permite que o centro
activo ( centro citolítico ou de substracto ) esteja
predominantemente extracelular e assim pode actuar na adenosina
extracelular. O gene codificador da ADA está localizado no braço
longo do cromossoma 20. Dois alelos codominantes, ADA¹
e ADA² dão origem a 3
fenótipos, ADA 1, ADA 2 e ADA 2-1, mais frequentes, sendo que estão
descritos outros fenótipos menos frequentes, o ADA 3 e ADA 5.
A
PFADA funciona como receptor celular para ADA1, não por promover a
entrada do ADA na célula mas para a associar à membrana protegendo
a célula de efeitos tóxicos da adenosina e regulando a concentração
extracelular da adenosina.
No
entanto, é sugerido que no rim, no túbulo contornado proximal,
funcionará como receptor celular da ADA promovendo a reabsorpção
de grande parte da enzima filtrada no glomérulo. Terá também papel
na modulação do metabolismo da ADA e na malignização celular.
Utilização
clínica da ADA
Várias
técnicas laboratoriais existem para o doseamento da ADA, sendo que a
maioria baseia-se na pesquiza de subprodutos da acção da enzima
sobre a adenosina. Actualmente o método mais utilizado baseia-se na
pesquiza de amoníaco formado e é um método colorimétrico.
Doseia-se
a ADA tanto no soro como no plasma mas também nos líquidos
biológicos pericárdico, pleural, LCR, peritoneal, articular bem
como nas células ou tecidos.
Os
valores referência para a ADA sérico ou plasmático estão no
intervalo 10-25 unidades internacionais por litro.
Patologias
hepáticas, como hepatite ou cirrose hepática, cursam com aumento da
concentração do ADA comparativamente com patologia litiásica ou
neoplásica hepática. No entanto este é um teste em desuso para a
patologia hepática pela existência de outros testes mais fidedignos
e que apontam maior informação.
Níveis
aumentados de ADA no soro ou plasma apresentam-se em patologias em
que há marcada estimulação do sistema imunitário particularmente
na imunidade celular como acontece na febre tifóide, mononucleose
infecciosa, tuberculose pulmonar, brucelose, lepra, pneumonia a
Mycoplasma pneumoniae, febre escaro-nodular, SIDA e leucemia
de células T do adulto, miastenia gravis e sarcoidose. Na gravidez a
concentração de ADA declina.
ADA
eleva-se em crianças com doença respiratória baixa, sendo a
tuberculose pulmonar que surgem os valores mais elevados, seguindo-se
por pneumonia bacteriana, pneumonia a Mycoplasma pneumoniae e
pneumonia vírica.
Sugere-se
que o aumento paralelo de ADA com a evolução de SIDA se deve a que
o ADA é proveniente dos macrófagos e não dos linfócitos,
macrófagos estes que ao contrário dos linfócitos sofrem poucas
alterações durante a evolução natural da patologia.
ADA no
líquido pleural
Verificou-se
com grande evidência a utilidade do doseamento da ADA no líquido
pleural na etiologia tuberculosa dos derrames pleurais embora a sua
sensibilidade e especificidade seja alvo de discussão. O valor de
referência para o líquido pleural é de 33 a 70 UI/l.
Nos
derrames pleurais de etiologia tuberculosa apontam-se valores
superiores a 40 UI/l sendo que se a colheita for muito
precoce, o resultado pode ser um falso negativo. Estes falsos
negativos também podem ocorrer em crianças muito pequenas e na
tuberculose miliar.
Resultados
falsos positivos também podem aparecer e surgem nos derrames de
origem reumatóide, linfomatosa, tularemia e empiemas pleurais.
Mesoteliomas e carcinomas brônquicos raramente cursam com aumento da ADA. Os
valores de ADA no lúpus podem ser dispares, tanto se verificando
valores altos como valores baixos.
ADA no
líquido pericárdico
Na
pericardite tuberculosa observam-se valores superiores a 40 UI/l
enquanto que se o derrame for de etiologia infecciosa, inflamatória
ou neoplásica, podemos obter concentrações de ADA inferiores.
Pericardites purulentas ou neoplásicas podem dar resultados falsos
positivos.
ADA no
líquido peritoneal
O
doseamento de ADA é de grande utilidade no diagnóstico diferencial
no caso de peritonite tuberculosa, ajudando grandemente a diferenciar
nomeadamente de peritonite neoplásica.
Resultados
falsos positivos podem no entanto aparecer nas peritonites
neoplásicos e fúngicas enquanto que em alcoólicos podem verificar
resultados falsos negativos. É no entanto de utilidade o doseamento
da ADA no líquido peritoneal nos doentes alcoólicos com cirrose
hepática e ascite.
ADA no
líquido articular
Em
doentes com artrite reumatóide ( V. refª 21,5 ±
8,4 UI/l ) ou artrite reactiva ( V. refª 18,5 ±
10,3 UI/l ) observam-se valores elevados de ADA.
Em
artrite reumatóide, artrite reactiva e artrite crónica juvenil
observam-se valores elevados de ADA no líquido sinovial mas este
teste tem pouco valor dado nestas patologias os valores de ADA
sobrepoem-se aos observados em artrite purulenta, gota ou artrite
lúpica.
A
concentração de ADA no líquido sinovial está aumentada sempre que
se verifique uma doença inflamatória articular. Também na artrite
tuberculosa a determinação de ADA se mostra uma análise muito
valiosa
ADA
no LCR
Em
indivíduos saudáveis a concentração de ADA no LCR é raramente
superior a 2 UI/l, podendo mesmo ser indoseável. Em doentes com
neoplasias do SNC observam-se valores de ADA aumentados.
Na
meningite tuberculosa observam-se valores de ADA aumentados
significativamente enquanto que em doenças inflamatórias ou
degenerativas, bem como na meningite asséptica, os valores de ADA
não diferem significativamente dos valores de referência.
Falsos
negativos observam-se em fases muito precoces de meningite
tuberculosa, assim como em casos de tuberculose miliar.
Linfoma
ou outras neoplasias cerebrais, neurosarcoidose, neurobrucelose,
meningite fúngica, meningite por Listeria, meningite vírica e
toxoplasma cerebral podem cursar com altos valores de ADA.
ADA
nas células hemáticas
Doseamento
de ADA em linfócitos e eritrócitos é o procedimento ideal para
diagnóstico de imunodeficiência congénita de déficit da enzima.
Fisiopatologia
do aumento de ADA
Pensa-se
que o aumento de ADA nos líquidos biológicos resulta de um aumento
dos linfócitos CD4+, células especialmente ricas em ADA, ou de uma
aumentada estimulação e maturação das células CD4+, mais que o
seu aumento de número. Hipotetiza-se que também o macrófago jogue
um papel neste aumento de concentração de ADA.
Os
microorganismos causadores de infecção bem como a destruição
tecidular e a lise neutrofílica resultantes podem também ajudar ao
aumento da concentração de ADA nos líquidos biológicos.
O
diagnóstico das membranas serosas, sinovial e meníngea por infecção
por BK é um desafio médico complexo já que os exames de estudo
bacteriológico são demorados e por vezes não esclarecedores e
exige técnicas de alguma agressividade se se optar por estudos
histológicos. A urgência da instituição terapêutica não se
compadece com estas dificuldades. Assim é imperiosa uma investigação
por métodos rápidos que devem ter fácil execução, não
necessitarem de pessoal qualificado nem aparelhagem muito
sofisticada, serem fiáveis e de baixo custo.
A
determinação da actividade de ADA é um método que cumpre com
estes requesitos sendo o maior obstáculo a esta técnica a presença
de resultados falsos positivos e, em menor grau de severidade,
resultados falsos negativos.