sábado, abril 13, 2013

Aftas


Aftas


Manifestações clínicas intrabucais da Doença de Crohn


A doença de Crohn é uma doença inflamatória crónica, granulomatosa, de etiologia desconhecida mas com natureza imunológica e factor genético interveniente no seu desencadear.
Todo o tubo digestivo pode ser acometido pela doença de Crohn, afectando todos os grupos etários, com predomínio de idade inicial entre os 25-30 anos e, posteriormente, na faixa etária dos 60-65 anos, podendo ocorrer manifestações sistémicas extradigestivas. A prevalência das lesões na cavidade bucal varia com a faixa etária, atingindo os 2 sexos, e é mais prevalente em pessoas de raça branca. Em cerca de 30-60 % dos casos, as lesões bucais precedem as lesões sistémicas. Apenas em cerca de 9 % dos casos de doença de Crohn aparecem manifestações orais ( as manifestações orais aparecem apenas em cerca de 9% dos casos de doença de Crohn, mas quando aparecem surgem antes das manifestações sistémicas em 30-60% das situações ).
Nas fases iniciais da doença de Crohn, a sintomatologia pode ser súbtil e dificultar, e atrasar, o diagnóstico. Os sinais e sintomas mais frequentes da doença de Crohn são a dor abdominal, diarreia, mal estar geral, anorexia, perda de peso, anemia e febre. A doença de Crohn caracteriza-se por ser uma doença crónica com crises separadas por períodos de remissão totalmente assintomáticos. As lesões intestinais são pequenas erosões ou úlceras entremeadas por edema submucoso e com áreas totalmente sãs entre elas.
Na mucosa bucal atinge principalmente a região do fundo do sulco, embora os lábios, gengivas e outros locais podem estar envolvidos. As lesões são inicialmente úlceras focais lineares na mucosa, semelhantes às úlceras aftosas recorrentes mas mais persistentes, mais profundas, de forma linear e circundadas por margens hiperplásicas.


Afta associada a doença de Crohn

O tratamento das lesões orais nos doentes com doença de Crohn é feito com corticóides sistémicos ou locais, que ajudam a diminuir ou melhorar a sintomatologia das úlceras, levando até à remissão da sintomatologia.

As úlceras intrabucais costumam aparecer como úlceras lineares rasas, com centro deprimido, limites pouco elevados e nitidamente eritematosos, mais frequentemente no fundo do sulco gengival, e que duram mais do que as úlceras aftosas recorrentes ( mais de 15 dias em geral ).


Leucoderma bucal

Importante ter em mente que, apesar das lesões ulcerosas intrabucais serem uma manifestação de doença de Crohn que podem anteceder as manifestações digestivas da doença, lesões semelhantes podem ocorrer na população em geral ( inclusivé doentes com doença de Crohn ) e nada terem a ver com a doença de Crohn. A biópsia destas lesões em doentes com doença de Crohn, na maioria das vezes, dá resultados inconclusivos. O tratamento da doença de Crohn deve ser implementado, e este tratamento em geral faz desaparecer as lesões intrabucais.
As úlceras aftosas recorrentes ( aftas ) do tipo minor são caracterizadas como úlceras rasas, planas, ovais, com halo eritematoso, enquanto que as úlceras da doença de Crohn são mais lineares. No entanto, as úlceras aftosas major , por serem mais profundas e perderem a forma oval, assemelham-se às das da doença de Crohn.
O edema dos lábios, da mucosa oral e gengiva pode ser sinal de doença de Crohn.


Causas do aparecimento das aftas

As aftas aparecem mais no sexo feminino que no masculino e atingem mais a faixa etária dos 10 aos 40 anos.
A etiologia das aftas permanece desconhecida, mas nota-se uma correlação entre o aparecimento das aftas e certos factores, estando entre estes os seguintes:
  • medicamentos: AINE's, antibióticos, ácido benzóico, antivitamina K, meprobamate, quimioterapia
  • falta da higiene oral
  • abuso de nutrientes aftogéneos: queijo tipo gruyère, frutos secos, nozes, castanhas, amendoins, amêndoas, chocolates, tempêros ( ketchup, vinagre, maionese, mostarda, etc.) glúten, tomate, abacaxi, café, pois são alimentos ácidos
  • carência de ferro
  • traumatismos químicos ou mecânicos
  • vírus como herpes ou HIV
  • mordedura da parte interior da bochecha
  • doença de Crohn
  • doença de Behçé
  • stress físico ou emocional
  • período menstrual
  • puberdade
  • gravidez ( remissão no 3º trimestre da gravidez é frequente )
  • menopausa
  • diabetes
  • alergias
  • neutropenias de diferentes etiologias
  • alcoolismo
  • tabagismo
  • predisposição genética
  • deficiência de ácido fólico, zinco, vitamina B1, B2, B6 e B12 e ferritina
  • alterações hormonais
  • poucas horas de sono
  • Helicobacter pylori
  • refluxo gastro-esofágico

As aftas são pequenas úlceras, arredondadas a ovais, com fundo amarelado e contorno avermelhado, que aparecem nas gengivas, bordo interno dos lábios e bochecha e ponta da língua.
Para ajudar ao tratamento das úlceras aftosas deve-se fazer, 2-3 vezes por dia, gargarejos com água e sal. O fundamento deste procedimento é que, dado as feridas da mucosa oral serem causadas pela hiperacidez presente, o gargarejo com água salgada remove a acidez.
Alimentos como carnes vermelhas, doces, melão ou nozes favorecem o aparecimento das aftas. Para contrabalançar os factores por estes alimentos criados para o favorecimento do surgimento das aftas devem-se ingerir saladas.
A resposta inflamatória das aftas é o resultado anormal duma resposta imunológica dirigida à mucosa bucal. A imunopatogenia pode estar envolvida com o desiquilíbrio imunológico desses doentes. Na verdade, estudos demonstram haver aumento de CD4 e diminuição de CD8.

As aftas podem ser de 3 tipos:
  • Tipo minor: o mais comum, constituindo 80-90% dos casos, são lesões pequenas, únicas ou múltiplas, ovóides a arredondadas, com base crateriforme, contorno bem definido e halo eritematoso, com exsudado amarelado e centro deprimido, com cerca de 10 mm de diâmetro e duração de 7-14 dias; afectam predominantemente a mucosa do soalho bucal, jugal e labial e menos vezes a mucosa palatina, gengival e dorso da língua
  • Tipo major: são cerca de 7-10% dos casos, de diâmetro superior a 10 mm e que deixa cicatriz ao curar; pode durar até 6 semanas, localizando-se preferencialmente no palato mole e mucosa labial
  • Tipo herpetiforme: são múltiplas e numerosas úlceras, de 10 a 100 ou mais, pequenas, de 1-3 mm de diâmetro, que ocorrem em um único surto e podem fundir-se, persistindo até 10 dias.

A afta provoca dor decorrente da exposição do tecido conjuntivo altamente inervado. Esta lesão, de etiologia desconhecida, parece decorrer de uma falha imunológica, embora outras causas também possam ter um papel relevante no seu surgimento. A afta é uma lesão não infecciosa, e como tal não apresenta sinais de infecção, como seja secreção purulenta ou microorganismos presentes na lesão.

                  Afta tipo minor                                 Afta tipo major                                 Afta tipo herpetiforme

A lesão aftosa apresenta 4 fases:
  1. Período prodrómico: dura até 24 horas e apresenta parestesias ( formigueiro ), queimor, dor ou hiperestesia sem alterações clínicas
  2. Estadio pré-ulcerativo: dura de 18 horas a 3 dias, com dor de intensidade variável, geralmente moderada
  3. Fase ulcerativa: caracterizada por áreas ulceradas, planas ou elevadas, com halo eritematoso gradualmente coberto por uma membrana cinzenta ou amarelada, e que dura 1 a 6 dias; as lesões são dolorosas
  4. Período de cicatrização: dura 4-35 dias consoante o tipo de úlcera.

Tentativas de implicar microorganismos com o aparecimento das aftas não foram bem sucedidas, havendo, no entanto, a hipótese de existirem reacções cruzadas entre os antigéneos da mucosa oral e bactérias como o Streptococcus sanguis. Outros estudos, mal sucedidos neste aspecto, tentaram implicar os vírus herpes simplex, varicela-zoster, citomegalovirus e o vírus de Epstein-Barr.
Processos imunológicos mediados por células, nomeadamente mononucleares, células T e células NK, estão envolvidos, estando evidenciado ocorrer reacções citotóxicas teciduais anticorpo-dependentes. Também se verificou um abaixamento das IL-10.

quinta-feira, abril 11, 2013

Melanina


Melanina



Os grânulos de melanina são fabricados pelos melanócitos, células dendríticas originárias da crista neural, produtoras de pigmento, que sofrem influência da hormona melanocítica produzida pelo lobo intermediário da hipófise. A produção dos melanócitos necessita da tirosinase. Com a idade, a actividade da tirosinase diminui e o pigmento que dá a cor ao cabelo deixa de se produzir e ficam os cabelos brancos. Esta alteração da produção de tirosinase também se pode verificar pelo stress e algumas doenças como a tiroidite ou a anemia perniciosa.

Dois tipos de melanina existem:
  • eumelanina, mais escura
  • feomelanina, presente nas pessoas loiras e ruivas
As pessoas ruivas apresentam mutações do receptor de melanocortina 1 ( MC1-R ) que resultam na sintese da feomelanina, pigmento este que, ao contrário da eumelanina, não é boa barreira contra os raios ultravioleta e cujos produtos de fotodegradação são genotóxicos e, portanto, carcinogénicos.
A via de síntese da feomelanina tem, como desvantagem, a utilização de uma molécula importante para outras vias metabólicas , como as associadas à cisteína. Isso acontece pela razão de que para a feomelanina ser formada é preciso a glutationa redutase ( GSH ). No entanto, por vários motivos, a cisteína pode acumular-se demais e levar a efeitos bioquímicos prejudiciais, inclusivé com os níveis altos da cisteína se correlacionando com o aparecimento de artrite reumatóide, lupus eritematoso sistémico, doença de Parkinson e doença de Alzheimer e doenças cardiovasculares.



Assim, no sequestro de GSH, nos casos em que há acúmulo de cisteína até concentrações perigosas, é útil haver uma via de síntese, como a da feomelanina, para a degradação de cisteína-GSH.
O stress térmico esgota os níveis de GSH eritrocitário, e como este tipo de stress diminui com o aumento da latitude, e concomitante diminuição da temperatura, as maiores concentrações de GSH-cisteína tendem a provocar um aumento da feomelanogénese e inibição da eumelanogénese à medida que nos afastamos do equador, tornando mais fácil a síntese da feomelanina. Por outro lado há uma maior prevalência de parasitas humanos em baixas latitudes e, dado os parasitas gerarem stress oxidativo nos hospedeiros, sugere-se que os níveis elevados de eumelanização estão envolvidos na resposta a estes efeitos oxidativos, uma vez que a GSH é um composto anti-oxidante.

A GSH é a forma principal de armazenamento da cisteína, actuando assim como reserva deste aminoácido.
A produção da eumelanina e da feomelanina é feita por processos diferentes. Podemos diferenciar um pigmento eumelânico ( com forma de pequenos bastões ) dum pigmento feomelânico ( com forma de grãos esféricos ).



Melanina é uma classe de compostos poliméricos derivados da tirosina e cuja principal função é a pigmentação e protecção contra a radiação solar. A falta de melanina dá origem ao albinismo. A melanina é produzida nos melanócitos ou melanoblastos, células da camada basal da epiderme, que mantêm contacto com os queratinócitos através de projecções citoplasmáticas, sendo estes prolongamentos que permitem que os pigmentos melânicos produzidos se depositem nos queratinócitos.




A síntese da melanina é processada pela tirosinase existente no aparelho de Golgi dos melanócitos. A melanina é sintetizada a partir da fenilalanina convertida em tirosina pela fenilalaninahidroxilase, e é originada a partir da polimerização da tirosina que se deposita nos melanossomas que se deslocam para os prolongamentos citoplasmáticos dos melanócitos, sendo  transferidos  para  os  queratinócitos  por  um  processo  denominado secreção  citócrina ( de célula a célula ) permanecendo os grânulos de melanina no citoplasma dos queratinócitos.


As diversas camadas de queratinócitos com melanina proporcionam uma defesa eficaz aos tecidos contra os efeitos nocivos das radiações UV solares. Os raios solares aumentam a actividade da tirosinase nos melanossomas. Várias hormonas também participam da produção melânica.


A hipófise secreta ACTH e HME ( hormona melanócito estimulante ) aumentando a síntese da melanina. Já as hormonas da suprarrenal apresentam-se inibidoras da hipófise, do ACTH e do HME, levando a um equilíbrio e modulação da síntese da melanina. Os grânulos de melanina dispõem-se sobre o núcleo do queratinócito, protegendo o DNA da acção dos raios solares. A eumelanina é muito mais eficaz que a feomelanina nesta função de protecção de danos ao DNA pelos raios solares, e por isso os cancros da pele são muito mais frequentes em pessoas de pele clara do que em pessoas de pele escura. A produção da eumelanina e da feomelanina é controlada por um receptor transmembrana ao qual a MC1-R se liga.
A ausência da tirosinase , fundamental para a síntese da eumelanina, é a responsável pela ausência de pigmentação   dos  indivíduos com albinismo.  Disfunção  nos  genes  responsáveis  pela   síntese   dos   enzimas  produtores  da  melanina  também  levam  ao aparecimento  da fenilcetonúria.




A síntese da feomelanina esquematiza-se da seguinte forma

cisteína ---> intermediários benzotiazinas ---> feomelanina

A síntese da eumelanina esquematiza-se da seguinte forma

l-tirosina ---> dopaquinona ---> hidroxindoles ---> eumelanina


A melanina é eliminada através do processo natural de descamação e renovação da pele.
Pessoas ruivas de pele clara estão em maior risco de desenvolverem melanoma. Este fenótipo é devido à inactivação de polimorfismos do gene do MC1-R.
O MC1-R  codifica  uma  cAMP  estimulante  dos  receptores acoplados à proteína G que



controla a produção do pigmento melânico. Actividade mínima produz a feomelanina, enquanto que aumento da actividade do MC1-R estimula a produção da eumelanina.
A   pigmentação   da  pele  sofre forte controlo hormonal. ACTH, hormona hipofisária e MSH ( hormona estimulante dos melanócitos ) actuam no sentido da estimulação da melanogénese   bem  como  o  MC1-R.
A   radiação   UVB   sobre   a   pele   humana   induz   à   produção  de  MSH  e   ACTH


nos melanócitos e queratinócitos através da estimulação da tirosinase e a síntese da melanina. Pelo contrário, hormonas da suprarrenal inibem a produção da melanina.
A síntese da melanina dá-se exclusivamente nos melanossomas. Os melanossomas nos negros são maiores e mais maduros que nos indivíduos de raça branca e são armazenados mais como unidades do que como agrupamentos.



Melanócitos são células responsáveis pela pigmentação da pele e pêlos, conferindo protecção directa aos danos provocados pelos raios solares ( UVB principalmente ). São células dendríticas derivadas dos melanoblastos originários da crista neural. Estes melanócitos, completamente desenvolvidos, distribuem-se por vários locais: olho ( epitélio pigmentar retiniano, iris, coróide ), ouvidos, SNC ( leptomeninges ), matriz dos pêlos, das mucosas e da pele. Na pele os melanócitos localizam-se na camada basal da epiderme e ocasionalmente na derme. Os melanócitos transferem os melanossomas aos queratinócitos. Esta associação melanócitos-queratinócitos se denomina de unidade epidérmico-melânica e é constituída por um melanócito e cerca de 36 queratinócitos. 
A densidade dos melanócitos  varia  consoante  a  localização  no  corpo  humano, sendo maior    na  cabeça   e   antebraço   que    no   resto    do    corpo.    Esta    regulação   do


número de melanócitos está mediada pelos queratinócitos e por mediadores específicos como o factor de crescimento dos fibroblastos.
Com a idade, o número de melanócitos diminui em áreas não expostas aos raios solares numa proporção de 6-8 % por cada 10 anos. As diferenças da pigmentação são devidas ao grau de  actividade  de  síntese  da  melanina  e melanossomas, proporção dos subtipos de melanina    ( eumelanina e feomelanina ), distribuição e envolvimento de factores ambientais com exposição à luz solar.


A melanina produzida, fica armazenada em estruturas citoplasmáticas dos melanócitos denominadas melanossomas.
Os melanossomas são organelos onde ocorre a síntese e armazenamento da melanina e o armazenamento da tirosinase, sintetizada pelos ribossomas, necessária à produção da melanina. A síntese da melanina é mesmo apenas feita nos melanossomas. A diferença fenotípica fundamental entre as raças reside na qualidade dos melanossomas ( há 4 tipos de melanossomas denominados grau I a grau IV ). Os melanossomas têm um importante papel fotoprotector contra os danos celulares provocados pelos raios solares.
Melanina é o principal pigmento biológico que interfere na pigmentação da pele.
A tirosina, o elemento inicial da biossíntese da melanina, pela acção da tirosinase, complexo enzimático cúprico-proteico sintetizado nos ribossomas e transferido para o aparelho de Golgi, é aglomerado nos melanossomas. Os 3 membros da família da tirosinase ( tirosinase, tirosinase relacionada à proteina 1 – Tyrp1 – e a dopacromotautomerase – Dct ) estão envolvidos na melanogénese que leva à produção da eumelanina ou da feomelanina.


A tirosinase, na presença de oxigénio, oxida a tirosina formando a dopa e posteriormente a acção da dopaquinase leva à produção de dopaquinona. A partir do momento da formação da dopaquinona a presença, ou ausência, da cisteína determina a síntese de feomelanina ou eumelanina.
Na ausência de cisteína a dopaquinona vai originar a ciclodopa e esta origina o dopacromo. O dopacromo tem 2 vias de degradação: uma, que origina a dihidroxiindol ( DHI ) e outra que origina a DHICA ( dihidroxiindol do ácido carbólico ). Este processo é mediado por um membro da família das tirosinases, a Dct. Por fim, estes dihidroxiindois são oxidados originando a melanina. A Tyrp1  está  envolvida  na catalização da DHICA em eumelanina. 
Por outro lado, na presença de cisteína, a dopaquinona reage com as cisteinildopas, que são oxidadas em benzotiazinicos e produzem feomelanina.


A eumelanina é um pigmento alcalino e insolúvel enquanto que a feomelanina é alcalino mas solúvel. A feomelanina pode ser oxidada na presença de iões metálicos e tornar-se mais claro.
A melanogénese apresenta 3 passos importantes:
  1. produção de cisteinildopa, que continua tão intensa quanto a quantidade de cisteína presente
  2. oxidação de cisteinildopa para a formação de feomelanina
  3. produção de eumelanina, iniciada apenas após a maioria da cisteinildopa ser depletada


Parece que a eumelanina se deposita sobre a feomelanina pré-formada, e a relação entre feomelanina e eumelanina é determinante pela actividade da tirosinase e disponibilidade de cisteína.
A eumelanina absorve e dispersa a luz UV atenuando a sua penetração na pele reduzindo assim os efeitos nocivos daquelas radiações solares.
A feomelanina, para além de ser menos eficaz na protecção contra as radiações solares, também tem um grande potencial de gerar radicais livres como resposta aos raios UV solares que provocam danos no DNA.


O MC1-R controla a taxa de eumelanina e feomelanina dentro dos melanossomas e esta proporção é um importante determinante à sensibilidade solar do ser humano.
A melanina total da pele resulta de uma mistura de monómeros de feomelanina e eumelanina, e a proporção entre as duas determina a expressão fenotípica final da cor da pele e cabelo.
Melanossomas com eumelanina, após exposição às radiações UV, permanecem intactos na epiderme. Pelo contrário, nenhum melanossoma aparece intacto nos casos de feomelanina ser o tipo de melanina presente nesses melanossomas.



Os principais factores reguladores para a quantidade e qualidade de melanina produzida pelos melanócitos incluem as radiações ultra-violeta, α-MSH ( hormona estimuladora dos melanócitos tipo α ou melanocortina ), ASP ( proteina sinalizadora AGOUTI ) e MC1-R.
O α-MSH é produzido também nas ilhotas de Langerhans do pâncreas e nos melanócitos. A α-MSH tem funções parócrinas nos melanócitos. Os efeitos do α-MSH são mediados pelo MC1-R, o qual é expresso na superfície dos melanócitos, sendo considerado o ponto chave para a pigmentação.
O gene do MC1-R é considerado um dos maiores marcadores de susceptibilidade a neoplasias malignas cutâneas já que variantes genéticas estão associadas a maior risco de desenvolvimento de melanoma e cancro cutâneo não melanoma.

domingo, março 24, 2013

Extracto polifenol de chá verde


Extracto polifenol de chá verde





O chá verde é derivado das folhas da planta denominada Camellia sinensis. É uma planta termogénica por excelência, que aumenta o metabolismo do organismo, permitindo que queime mais gordura quer em repouso quer em actividade física. Estimula também o SNC, facto que permite obter mais energia.
O extracto de chá verde é um bioflavonóide, potente no combate aos radicais livres. O chá verde contem um alto teor de polifenóis, uma classe de bioflavonóides. O extracto de chá verde apresenta um anti-oxidante potente, o galato de epigalocatequina ( GEGC ), cerca de 200 vezes mais potente que a vitamina E na função de neutralizador dos pró-oxidantes e radicais livres que atacam os lípidos cerebrais. O GEGC protege contra as infecções digestivas e respiratórias, ajuda a bloquear certos cancros promovendo acções anticancerígenas, tem propriedades para diminuir o colesterol total e o LDL subindo o HDL, e tem propriedades bacteriostácticas por bloquear a fixação de certas bactérias associadas às cáries dentárias. Os polifenóis de chá verde são estáveis numa ampla faixa de pH. O extracto de chá verde actua sobre o metabolismo das gorduras. Potente anti-oxidante, pode ter utilidade na perda de gordura, actuando sem aumentar a frequência cardíaca.

O chá verde é uma substância rica em polifenóis, principalmente catequinas. A principal, e mais abundante, catequina é a GEGC que possui potentes propriedades bioquímicas e fisiológicas, dentre as quais se podem destacar a estimulação do metabolismo lipídico pela combinação da ingestão de catequinas e a prática de exercícios físicos regulares.
O chá verde contem componentes polifenólicos que incluem flavonóis, flavandióis, flavonoides e ácidos fenólicos, que totalizam cerca de 30% do peso das folhas. A maioria dos polifenóis do chá verde apresentam-se  como  flavonóis,  predominando  nestes  as  catequinas,  sendo  as principais a epicatequina (  EC ),  3-galato  da  epicatequina  (  GEC ),  epigalocatequina  (  EGC )  e  3-galato  de  epigalocatequina ( GEGC ).
Uma típica chávena de chá, preparada com 1 g de folhas para 100 ml de água, contem 35-40 mg/100 ml de catequinas, a maioria das quais sendo o GEGC, e 6 mg/100 ml de cafeína.
Cerca de 50% das catequinas são epimerizadas pelo tratamento térmico que o chá sofre na sua confecção. A epimerização não altera significativamente a actividade anti-oxidante, a absorpção nem o metabolismo dos polifenóis do chá.
Normalmente os níveis plasmáticos de polifenóis são baixos, apresentando-se em concentrações micromolares, o que sugere que a ingestão deve ser feita várias vezes ao dia, de forma fraccionada, para um efeito benéfico à saúde.


Função das catequinas no metabolismo lipídico

O extracto de chá verde, contendo 25% de GEGC, reduz o apetite e aumenta o catabolismo das gorduras, em doses de 240-320 mg/dia de polifenóis. O efeito inibidor promovido pelo chá verde no ganho de gordura corporal resultou, pelo menos em parte, da redução da digestibilidade e do aumento da termogénese e do conteúdo proteico no tecido adiposo castanho pela activação do β-adrenoreceptor. Também os níveis séricos de leptina, insulina, IGF-I ( insulin-like groth factor I ) e LH diminuem pela acção do GEGC. Esta diminuição hormonal pode dever-se a um efeito secundário na ingestão alimentar.
GEGC também tem um efeito positivo sobre a termogénese em células adiposas castanhas.
As catequinas do chá verde promovem diminuição da gordura corporal e inibem o crescimento de muitas células cancerosas in vitro, por induzirem a apoptose. A GEGC tem a propriedade de inibir a adipogénese e induzir a apoptose dos adipócitos, bem como inibe, de modo dose dependente, o acúmulo de lípidos nos pré-adipócitos.
A ingestão de GEGC inibe a peroxidação lipídica e promove alterações na concentração de LDL modificada por malondialdeído ( LDL-MDA ), um marcador para a doença cardiovascular aterosclerótica.
O chá verde possui propriedades termogénicas e promove a oxidação da gordura. O chá verde é rico em flavonóides e vários dos seus polifenóis, como as catequinas e seus metabolitos, podem inibir a catecol-o-metiltransferase ( COMT ) que é a enzima responsável pela degradação da norepinefrina, reduzindo assim as suas concentrações nas junções sinápticas e sua interacção com adrenorreceptores. Devido ao importante papel do sistema nervoso simpático, e seu neurotransmissor norepinefrina, no controlo da termogénese e na oxidação da gordura, é compreensível que as catequinas, pela inibição da COMT, levem a um aumento do efeito da norepinefrina, potencializando a oxidação de gorduras pela activação da termogénese.

Benefícios do chá verde para a saúde

Os polifenóis do chá verde apresentam efeito protector anti-hipertensivo em doentes hipertensos, atenuando o desenvolvimento da hipertensão arterial, provavelmente pelas propriedades anti-oxidantes das catequinas, uma vez que o stress oxidativo, é sabido, estar envolvido na hipertensão, bem como nas doenças cardiovasculares. O consumo de chá verde leva à diminuição da tensão arterial pela acção dos polifenóis, das catequinas e dos flavonóis, como eliminadores de espécies reactivas de oxigénio e óxido nítrico, bem como quelantes de metais de transição. Outro mecanismo regulador associado à contracção do músculo liso é a fosforilação/desfosforilação da cadeia leve da miosina e a actividade da catalase, um varredor específico do peróxido de hidrogéneo.
Independentemente do processamento térmico, e consequente epimerização das catequinas, estas impedem a hipertrigliceridemia pós-prandeal por diminuirem a capacidade e velocidade da absorpção dos triglicerídeos no intestino, pela inibição directa da lipase pancreática. A hipertrigliceridemia pós-prandeal é um factor de risco para a doença coronária, e os estudos sugerem que as catequinas podem prevenir tal doença.
Também a absorpção intestinal do colesterol e α-tocoferol é diminuída pela acção das catequinas do chá verde.

Efeitos adversos atribuídos ao chá verde

Efeitos adversos podem incluir hepatopatias, obstipação, anorexia, insónia, hiperactividade, nervosismo, hipertensão, taquicardia e irritação gástrica. Altas doses de chá verde podem levar ao aparecimento de palpitações, cefaleias e vertigens pela presença da cafeína no chá verde.
O armazenamento do chá verde por longo tempo não é recomendável pois leva à perda dos compostos fenólicos.
O chá verde deve ser consumido no intervalo das refeições para não interferir com a biodisponibilidade de nutrientes provenientes das grandes refeições, como é o caso do ferro.

O polifenol E, substância presente no chá verde, parece atrasar a progressão do cancro da próstata conforme se observou pela redução significativa dos marcadores de progressão do cancro da próstata, nomeadamente o HGF ( factor de crescimento do hepatócito ), VEGF ( factor de crescimento vascular endotelial ) e PSA ( antigéneo específico da próstata ), sendo os 2 primeiros marcadores indicativos de metastização. Os resultados dos estudos mostraram redução significativa que chegou a 30% de diminuição da concentração desses marcadores.
Os polifenóis de chá verde têm acção positiva na prevenção da redução da densidade mineral óssea e cárie dentária.
A acção anti-oxidante dos componentes do chá verde é mais potente do que a da vitamina E, vitamina C, carotenos ou xantófilos. As catequinas do chá verde também têm acção antiagregante plaquetária.
O chá verde tem uma acção directa sobre as células gordas, inibindo a sua formação e induzindo à destruição dos adipócitos por apoptose.
O chá verde recupera as células envelhecidas da pele. Possui poder hidratante superior ao da água.
O polifenol reactiva as células da pele que estão morrendo, isso porque as células que chegam à superfície da pele começam a trabalhar com um metabolismo mais lento e se preparam para morrer, num processo que dura cerca de um mês, até serem substituídas por outras. Quando o polifenol actua sobre estas células epidérmicas, estas se reactivam, fabricando adenina e produzindo maior energia.
O GEGC tem propriedades capazes de inibir o crescimento de células cancerígenas, pode matar células cancerosas induzindo-lhes a apoptose sem prejudicar células saudáveis, pode reduzir os níveis de LDL-colesterol impedindo a formação de coágulos sanguíneos e limita os efeitos negativos do tabagismo e da gordura.
O chá verde pode ter acção benéfica nas seguintes patologias ou situações patológicas:
  • cancro
  • artrite reumatóide
  • hipercolesterolémia
  • doenças cardiovasculares
  • infecções
  • função imunitária diminuída

O chá verde tem as seguintes propriedades:
  • acelerador do metabolismo dos carbohidratos e lípidos
  • favorece a redução dos níveis de colesterol, principalmente LDL, e triglicerídeos
  • acção depurativa
  • neutraliza os radicais livres, prevenindo o envelhecimento das células e alterações celulares
  • acção desintoxicante, diurética, evitando a retenção de líquidos
  • facilita a digestão

A ingestão concomitante de chá verde com leite pode inibir os efeitos anti-oxidantes dos componentes polifenóis, pelo que deve ser evitado associar os 2 elementos.
O chá verde deve ser evitado por grávidas, mulheres em aleitamento, crianças, hipertensos, doentes com gastrite, doentes renais ou com glaucoma. Quem já teve arritmias cardíacas deve evitar o consumo excessivo de chá verde.

O chá verde é constituído por:
  • polifenóis: evitam a acção destruítivas das moléculas de radicais livres que degeneram as células auxiliando no combate ao envelhecimento e cancro
  • taninos: que tem uma acção na redução dos LDL, fortalece as artérias e veias favorecendo a prevenção de doenças cardíacas e circulatórias
  • bioflavonóides e catequinas: bloqueadores das alterações celulares que dão origem aos tumores; de referir que é atribuído aos flavonóides do chá ( todo o tipo de chá ) a possibilidade de fazer subir a concentração sérica do CA 19.9

O chá verde tem uma importante acção sobre muitas outras patologias, nomeadamente tem a capacidade de proteger a parede intestinal. Outras patologias em que interfere são, por exemplo, controlar a diarreia, diminui o risco de cáries dentárias e dor de dentes, emagrecimento, estomatites, facilita a digestão, ajuda a broncodilatação, melhora a respiração dos asmáticos, inibe a enzima associada ao desenvolvimento de tumores do intestino, esófago, pulmão e pele, diminui o colesterol total e o LDL aumentando o HDL, fortalece o coração, ajuda o tratamento da gripe, previne a litíase biliar e renal, normaliza a função tiroideia e regenera a pele e rins.
Estudos caso-controlo prospectivos a longo prazo mostram uma associação inversa entre o consumo de chá verde e o risco de cancro do cólon, bexiga,estômago, esófago, pulmão, pâncreas, próstata e de células escamosas. No entanto também foi descrito um aumento da recorrência do cancro da mama. Ainda está descrita a acção de atrasar o início de qualquer tipo de cancro pelo chá verde.

Os polifenóis do chá verde previnem a metastização do cancro da próstata, atingindo as vias moleculares que levam à proliferação e expansão dos tumores celulares, bem como inibindo o crescimento dos vasos sanguíneos que nutrem o tumor. Foi, na verdade, provado que os polifenóis do chá verde têm um papel na modulação das vias moleculares em células tumorais prostáticas induzidas pelo factor-1 do crescimento similar à insulina ( IGF-1 ). O consumo de chá verde, e consequente polifenóis seus constituintes, diminui a concentração de IGF-1, uma substância que se verifica estar aumentada nos cancros de próstata, mama, pulmão e cólon.
A modulação dos polifenóis de chá verde, das células de crescimento via eixo IGF-1 coincide com a produção limitada ou fosforilação de proteínas chave para a sobrevivência de células, incluindo PI3K, Akt e Erk½. A via molecular PI3K nas células, a qual inclui Akt e Erk½, tem acção na promoção de sobrevivência celular, ao contrário da morte celular programada, também chamada de apoptose.
Os polifenóis de chá verde também reduzem a expressão de proteínas conhecidas por se associarem a metástases das células cancerígenas..

Os polifenóis inibem os níveis de activadores de plasminogénio de urocinase, assim como a matriz metaloproteinase 2 e 9, moléculas celulares ligadas à metastização.
Também os polifenóis minimizam o crescimento tumoral pelo controlo do factor de crescimento endotelial vascular ( VEGF ). Esta redução pode ser resultado da supressão induzida pelos polifenóis sobre a IGF-1.
A angiogénese tumoral é prejudicada pela diminuição do VEGF que assim não produz novos vasos de nutrição ao tumor. É excepção a este facto do crescimento tumoral ser facilitado pela VEGF o colangiocarcinoma que sendo um tumor maligno não apresenta correlação com o VEGF.

A  GEGC  tem  propriedades  anticarcinogénicas  ( prevenção  do  cancro pela promoção ), anti-mutagénico ( não causar mutações genéticas ) e anti-reactiva ( bloqueio da interacção de promotores de tumor com seus receptores ).

As catequinas de chá verde, e principalmente o GEGC, apresentam os seguintes benefícios comprovados por diversos estudos bem orientados:
  • podem interromper o crescimento das células cancerígenas, ao mesmo tempo que protegem as células saudáveis
  • reforçam o sistema imunitário
  • evitam o aumento do colesterol total e LDL
  • pode evitar o envelhecimento precoce potenciado pela acção dos radicais livres.

O extracto de chá verde pode suprimir o crescimento de Helicobacter pylori, tanto in vitro como in vivo. Um estudo sugere que um polissacarídeo ácido do chá verde é significativamente eficaz na prevenção da adesão do H. pylori a células epiteliais humanas em cultura.

O  fígado  é  o  principal  local  da  metabolização  dos  polifenóis,  sendo  os  metabolitos  secretados  na bilis ( ciclo entero-hepático ) e urina.
Os flavonóides são quelantes do ferro. Pela acção anti-oxidativa dos lípidos celulares, protegem as membranas e mantêm a sua fluidez. Os polifenóis, por inibirem a peroxidação de lípidos do cristalino, têm acção protectora contra a formação de cataratas.
A protecção anti-oxidante é dada pela captura directa dos radicais livres, redução da actividade das enzimas oxidativas, diminuição da concentração de lípidos peroxidados no plasma e quelação de moléculas de cobre e ferro. A função protectora dos polifenóis contra a oxidação também se estende ao DNA celular, permitindo alterações genómicas e mutações responsáveis pela carcinogénese. Também foi evidenciada a capacidade de estimular a reparação do DNA secundária a uma agressão oxidante potencialmente mutagénica.

Os polifenóis do chá verde actuam contra a enzima quinol-oxidase, enzima esta que estimula o crescimento de células cancerosas do intestino, esófago, pulmão, mama e pele. Os polifenóis também ajudam a proteger as células saudáveis.
Os polifenóis limitam a formação e desenvolvimento de cancros pelos seguintes mecanismos:
  • inibição da formação de carcinogéneos a partir de pró-carcinogéneos
  • contribuição da conjugação e diminuição de carcinogéneos
  • formação de complexos inactivos com alguns carcinogéneos
  • reparação do DNA danificado por mutagéneos oxidantes
As propriedades estrogénicas de alguns polifenóis podem limitar o desenvolvimento de cancros hormono-dependentes, como é o caso do cancro da mama.
Os polifenóis apresentam um efeito bifidogénico sobre a flora intestinal nos seres humanos, estimulando o desenvolvimento da flora benéfica e diminuindo a proliferação de bactérias patogénicas, como os clostrídios.
A GEGC tem capacidade de inibição da formação de coágulos sanguíneos.

Os polifenóis reduzem o risco de adesão de placas de gordura aos vasos sanguíneos, contribuindo para a prevenção da aterosclerose. Têm também efeito anticoagulante. Por estas 2 acções, protegem das doenças cardíacas.
O chá verde, pelos seus polifenóis, tem forte acção anti-inflamatória no tubo digestivo. A maioria dos efeitos colaterais do chá verde devem-se à cafeína. Medicações alcalinas, como os antiácidos, podem ter a sua absorpção retardada pela presença dos taninos do chá verde.
O chá verde é rico em flavonóides, que são compostos essenciais na absorpção e metabolismo do ácido ascórbico ( vitamina C ) e aumentam a resistência capilar ( acção vasoprotectora ). Os polifenóis do chá verde são potentes anti-oxidantes. Tem também acção anti-diarreica pela acção das taninas existentes.


sábado, fevereiro 23, 2013

Faecalibacterium prausnitzii


Faecalibacterium prausnitzii


Faecalibacterium prausnitzii ( antes chamada de Fusobacterium prausnitzii ) é uma das bactérias comensais intestinais mais abundantes no cólon saudável. A Faecalibacterium prausnitzii contribui, conjuntamente com Bacteroides thetaiotaomicron e Eubacterium eligens, para a fermentação da pectina da maçã no cólon, mas não a pectina cítrica. A Faecalibacterium prausnitzii utiliza ácido urónico para o crescimento, uma capacidade que se pensava ser exclusiva dos Bacteroides spp entre os anaeróbicos colónicos humanos.
Estas bactérias são sensíveis ao oxigénio. A concentração relativa da Faecalibacterium prausnitzii apresenta-se diminuída nas doenças inflamatórias intestinais, e particularmente na doença de Crohn. Na doença de Crohn, principalmente nos casos de acometimento ileal, verifica-se uma disbiose, apresentando-se uma prevalência de Firmicutes diminuída, frequentemente com aumento paralelo de Proteobacteria. A diminuição dos Firmicutes é devida em parte à diminuição da abundância de Faecalibacterium prausnitzii. Esta diminuição de Faecalibacterium prausnitzii verifica-se também no cancro colorretal.
Faecalibacterium prausnitzii é uma das principais fontes de ácido butírico no cólon, e os múltiplos efeitos do butirato, como fonte preferencial de energia para os colonócitos e sobre a apoptose, inflamação e stress oxidativo, são geralmente considerados benéficos para a saúde intestinal. Faecalibacterium prausnitzii tem efeitos anti-inflamatórios apreciáveis.

Faecalibacterium prausnitzii tem o crescimento dificultado pela diminuição do pH, e o mesmo se verifica na presença de sais biliares. Na verdade, a concentração de sais biliares no lúmen colónico é um factor importante, que pode restringir a população de Faecalibacterium prausnitzii nos locais onde a concentração de bilis é mais alta, nomeadamente no intestino delgado. As melhores taxas de crescimento do Faecalibacterium prausnitzii verificam-se a pH de 6.7 e o crescimento é inibido a pH de 5.75. Concentrações de sais biliares acima de 0.5 %  impedem o crescimento da Faecalibacterium prausnitzii.
O principal produto produzido pela fermentação da pectina pela Faecalibacterium prausnitzii é o butirato.

Faecalibacterium prausnitzii é uma bactéria imóvel, produtora de butirato, formato e lactato, mas não hidrogéneo, como produtos da fermentação que realiza. De referir que apenas produz d-lactato e não l-lactato.
Embora fenotipicamente Gram negativo, Faecalibacterium prausnitzii é geneticamente relacionado com os clostrídios Gram positivos, pertencendo, de facto, aos Clostridium grupo IV. Esta relação filogenética só foi descoberta com o advento da era molecular.
Faecalibacterium prausnitzii é um bacilo anaeróbio estrito, imóvel que hidroliza a frutose, frutooligossacarídeos, amido e inulina. Não utiliza arabinose, melibiose, rafinose, rhamnose, ribose e xilose. Utiliza acetato ( ao contrário dos outros Fusobacterium spp que produzem acetato, e que é mais uma evidência de serem um grupo diferente daquele a que Faecalibacterium prausnitzii pertence, a que se adiciona o conteúdo de G + C do DNA que na Faecalibacterium prausnitzii é de 47-57 mol % enquanto que nas Fusobacterium spp é de 26-34 mol % ) e produz dióxido de carbono mas não hidrogéneo. É capaz de hidrolizar arginina e histidina, mas não prolina, leucina-glicina, fenilalanina, leucina, tirosina, alanina, serina, ácido piroglutâmico e ácido glutamilglutâmico e glicina. Os principais produtos da fermentação da glucose são o formato, butirato e d-lactato mas não l-lactato.
A produção de butirato e d-lactato pela Faecalibacterium prausnitzii é de importância significativa devido ao papel que o butirato joga como fonte de energia dos colonócitos, e na prevenção de colite e cancro colorretal. Já a produção de d-lactato pode ser de importância significativa em vista dos efeitos potencialmente tóxicos de acúmulo de d-lactato na via sanguínea.
Faecalibacterium prausnitzii é uma bactéria comensal, pertencente à microbiota intestinal, com potencialidades anti-inflamatórias e que se relaciona com o aparecimento da doença de Crohn. Uma diminuição da abundância e da biodiversidade das bactérias intestinais do phylum Firmicute tem sido, repetidamente, observado em doentes com doença de Crohn. Dentre os Firmicutes, observa-se que a diminuição da Faecalibacterium prausnitzii está associada a um maior risco de recorrência ileal da doença de Crohn.

Estimulação de mononucleares do sangue periférico pela Faecalibacterium prausnitzii levou a abaixamento significativo da IL-12 e γ-interferão e secreção mais elevada de IL-10. Administração oral de Faecalibacterium prausnitzii reduz marcadamente a colite e corrige a disbiose associada. Faecalibacterium prausnitzii exibe efeitos anti-inflamatórios parcialmente devido à secreção de metabolitos capazes de bloquear a activação do NF-kB e a produção de IL-8. Isto sugere que a utilização de Faecalibacterium prausnitzii, como probiótico, é uma medida promissora na estratégia terapêutica da doença de Crohn.
A recorrência endoscópica da doença de Crohn está associada a uma menor proporção de Faecalibacterium prausnitzii na microbiota intestinal. A hipótese de que a remissão da doença de Crohn está estreitamente associada à presença de Faecalibacterium prausnitzii é uma hipótese muito plausível, assentando nos dados actuais.
Faecalibacterium prausnitzii exerce efeitos anti-inflamatórios sobre as células mononucleares do sangue periférico. Também se verificou que os Lactobacillus salivaris apresentam efeitos anti-inflamatórios in vivo bem documentados. Pelo contrário, Lactobacillus acidophilus e Lactobacilus lactis, bem como a E.coli TG1 não apresentam efeitos anti-inflamatórios.
Faecalibacterium prausnitzii, bem como L.sallivaris, são muito fracas indutoras das citoquinas pro-inflamatórias/Th1 ( como as citoquinas IL-12 e γ-interferão ) e fortes indutoras da IL-10, uma citoquina anti-inflamatória. A razão IL-10/IL-12 é utilizada frequentemente para distinguir entre estirpes que exibam acção anti-inflamatória ( razão elevada ) das que exibem acção pro-inflamatória ( razão baixa ). Faecalibacterium prausnitzii exibe a mais elevada razão de entre todos os probióticos.
Sobrenadante preparado de Faecalibacterium prausnitzii reduz a secreção da IL-8 pelas células Caco-2 e tem capacidade de abulir a activação do NF-kB em linhas celulares Caco-2. Este sobrenadante não apresenta qualquer efeito antibacteriano.
Tanto o sobrenadante como a Faecalibacterium prausnitzii induzem um aumento da secreção de IL-10 e uma diminuição de α-TNF e IL-12. Também a disbiose é contrabalançada pelo sobrenadante e pela Faecalibacterium prausnitzii.

Está comprovado que os componentes microbianos da microbiota intestinal residente podem regular a inflamação intestinal.
Faecalibacterium prausnitzii é uma forte bactéria anti-inflamatória intestinal. Esta bactéria parece ser essencial para a homeostasia intestinal . Faecalibacterium prausnitzii altera a actividade do NF-kB induzida pela IL-1β e o seu sobrenadante tem a capacidade de abolir mesmo essa actividade. Este efeito sobre o NF-kB não é devido ao butirato.
Faecalibacterium prausnitzii pode dirigir a resposta imune através da inibição da via do Th1. Faecalibacterium prausnitzii associa-se a um decréscimo da síntese de citoquinas colónicas pro-inflamatórias ( IL-12, γ-INF ) e uma indução das citoquinas anti-inflamatórias ( IL -10 ).

Na doença de Crohn verificou-se uma diminuição das bactérias do phylum Firmicutes, especialmente da Faecalibacterium prausnitzii, e verificou-se que o sobrenadante das culturas destas bactérias tem propriedades anti-inflamatórias. Os níveis totais de Faecalibacterium prausnitzii, tanto antes como depois do tratamento, verificaram-se ser inferiores em doentes com doença de Crohn, comparativamente com controlos normais. Não se verificou correlação entre a abundância de Faecalibacterium prausnitzii e a severidade da doença de Crohn antes do tratamento.
A doença de Crohn é uma doença auto-imune, em que há um ataque imunológico dirigido às bactérias comensais do cólon. A cobertura das bactérias colónicas pelas imunoglobulinas aproxima-se dos 100% na doença de Crohn activa, comparando com cerca de 20% em pessoas saudáveis e indivíduos com síndrome de colon irritável. Após alimentação entérica esta cobertura diminui rapidamente.
Algumas bactérias da microbiota intestinal normal produzem butirato, como é o caso da Faecalibacterium prausnitzii. O butirato é a fonte de energia principal para os colonócitos, e também possui propriedades anti-inflamatórias e anticarcinogéneas. Devido ao butirato ser a principal fonte energética dos colonócitos, a diminuição dos Firmicutes, e particularmente Faecalibacterium prausnitzii, na doença de Crohn é um dado importante para o tratamento desta doença, dado que a diminuição verificada de Faecalibacterium prausnitzii leva a uma diminuição de ATP, derivado do butirato intracelular das células do epitélio intestinal. Concomitantemente, e devido à perda dos agentes anti-inflamatórios que derivam da Faecalibacterium prausnitzii, há uma diminuição da capacidade dos colonócitos combaterem infecções. Por estes 2 motivos, a terapêutica por recolonização com Faecalibacterium prausnitzii é justificada.


A microbiota intestinal é um complexo ecossistema que influencia de modo decisivo a imunorregulação do hospedeiro, concedendo protecção contra a colonização de patogéneos e produzindo ácidos gordos de cadeia curta como fonte principal de energia para os colonócitos.
A microbiota intestinal também produz ácidos gordos de cadeia curta através do metabolismo de substancias fermentáveis, tais como as fibras da dieta. Estes ácidos gordos de cadeia curta estimulam a absorpção da água pelo cólon e o butirato é a principal fonte de energia dos colonócitos. O butirato promove o crescimento dos colonócitos, prevenindo a atrofia da mucosa e diminui o risco de malignização no cólon, sendo assim benéfico para a integridade da função barreira da mucosa colónica. Faecalibacterium prausnitzii e Roseburia spp são as principais bactérias comensais colónicas produtoras de butirato pela fermentação do lactato. Assim a resistência à colonização e a produção de ácidos gordos de cadeia curta são importantes funções da microbiota intestinal. Por acções diversas, como antibioticoterapia ou redução da biomassa fermentável, a capacidade da microbiota em exercer estas acções é reduzida. A principal fonte de biomassa fermentável são as fibras dietéticas.
A redução da contagem total de bactérias e da produção dos ácidos gordos de cadeia curta é, parcialmente, neutralizada pela adição de fibras e frutooligossacarídeos à dieta. Em dietas livres de fibras, a concentração de butirato verificou-se sofrer uma redução.
O butirato correlaciona-se bem com a dieta livre ou suplementada em fibras. Verificou-se haver forte correlação entre Faecalibacterium prausnitzii e a produção de butirato durante uma dieta normal, e verifica-se uma redução de Faecalibacterium prausnitzii quando se muda para uma dieta livre de fibras ou para uma dieta líquida suplementada por fibras com consequente redução do butirato fecal. Bifidobacteria aumentam em proporção durante a instituição de uma dieta contendo fibras nas quais frutooligossacarídeos estejam presentes. Isto pode explicar porque a concentração de acetato é aumentada comparativamente com as dietas livres de fibras, uma vez que as Bifidobacteria são os principais produtores de acetato. Outras bactérias responsáveis pela produção de butirato, como as Roseburia spp, são associadas a fibras insolúveis e fermentam-nas como fonte energética.
Baixas quantidades de fontes primárias de energia ( ex.: butirato ) para os colonócitos podem resultar em diminuição da integridade da barreira intestinal.


Verificou-se que uma dieta livre de fibras ou suplementada de fibras, onde as fibras de ervilha constituem a fracção principal de fibras insolúveis, é acompanhada por números menores de Faecalibacterium prausnitzii e Roseburia spp que se correlacionam com concentrações mais baixas de butirato fecal.
Constactou-se que a recorrência endoscópica das lesões da doença de Crohn estão bem correlacionadas com uma proporção reduzida de Faecalibacterium prausnitzii. A Faecalibacterium prausnitzii exerce os seus efeitos anti-inflamatórios nas células mononucleares do sangue periférico. Faecalibacterium prausnitzii tem o mais alto poder de indução das IL-10 e o mais alto poder de inibição das IL-12, γ-interferão e α-TNF, em comparação com as outras bactérias comensais do cólon. O sobrenadante da Faecalibacterium prausnitzii inibe fortemente a activação do NF-kB ( factor nuclear do activador das cadeias leves da células B ), um potente pró-inflamatório.
Está perfeitamente estabelecida a capacidade da microbiota residente colónica poder regular a inflamação intestinal.
Faecalibacterium prausnitzii exibe efeitos anti-inflamatórios parcialmente devido aos metabolitos secretados bloqueadores da activação do NF-kB e secreção de IL-8. Além disso, verifica-se haver uma diminuição da síntese de citoquinas pró-inflamatórias colónicas e um aumento das citoquinas anti-inflamatórias ( IL-10 ). Contrabalançando a disbiose, pela utilização de Faecalibacterium prausnitzii, parece ser uma promissora estratégia terapêutica para a doença de Crohn.

Faecalibacterium prausnitzii tem a capacidade de transferir electrões extracelularmente para o oxigénio, em sistemas contendo flavinas e tióis. Dado que esta transferência estimula fortemente o crescimento Faecalibacterium prausnitzii pode utilizar riboflavina como mediador de transferência de electrões, extracelular, para o ánodo do sistema celular de combustível microbiano. A riboflavina medeia a oxidação electroquímica das principais bactérias redutoras de NADH.
Faecalibacterium prausnitzii é um componente integral da balança anti-inflamatória na saúde e a sua redução pode contribuir, directamente, para promover o estado de doença. Bacteroides fragilis é um microorganismo capaz de iniciar o processo inflamatório intestinal , mas também dirige a resposta imunológica anti-inflamatória. Componentes individuais da microbiota podem assim apresentar comportamentos distintos consoante as condições em que se apresentam.


Actualmente tem-se por adquirido que a microbiota intestinal é considerada como o pivot na patogenia da doença inflamatória intestinal. A DII no adulto associa-se a alterações microbianas e a uma diminuição da diversidade bacteriana. Faecalibacterium prausnitzii parece ter um papel protector na doença de Crohn estabelecida.
A microbiota joga um papel fundamental na imunidade celular e no metabolismo da energia, tendo sido implicada na patogénese de doenças autoimunes não gastro-intestinais, síndrome da fadiga crónica, obesidade, alterações neuropsiquiátricas, PTI e outras doenças.

Transplante de microbiota fecal, é um procedimento terapêutico que consiste em transplantar material fecal directamente no indivíduo a receber o transplante, seja por enema, coloscopia ou mesmo por via oral misturado com alimento. Apenas um caso foi descrito, até ao momento, para o tratamento da doença de Crohn, caso esse refratário à prednisona e salazopirina, tendo respondido, em 3 dias, ao tratamento com transplante de microbiota fecal, permitindo a descontinuação da medicação anterior e mantendo-se em fase de remissão há mais de 18 meses. A remissão pode, no entanto, obrigar a múltiplos transplantes de microbiota intestinal.
Nos doentes com doença de Crohn verificou-se que o CDAI, a PCR e a VS eram significativamente inferiores e a albuminemia significativamente superior naqueles doentes com Faecalibacterium prausnitzii em concentrações mais elevadas, comparativamente com os que as apresentam em concentrações menores. Verificou-se também que as comunidades bacterianas fecais nos doentes de Crohn são diferentes comparativamente com os indivíduos saudáveis, constatando-se uma diminuição da classe Clostridium, incluindo o género Faecalibacterium. A diversidade bacteriana colónica é significativamente diminuída.
A diminuída abundância da classe Clostridium, incluindo Faecalibacterium prausnitzii, pode traduzir-se numa redução da actividade anti-inflamatória na mucosa, mediada pelas bactérias comensais, que é relevante na fisiopatologia da doença de Crohn.


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